Protestos e detenção dão mais força a Benazir

Segundo especialista, ex-premiê convocou manifestações para pressionar Musharraf e obter moeda de troca

Angela Perez, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Ignorando as pressões internas e externas, o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, vem tomando medidas cada vez mais radicais em meio a sua desesperada tentativa de manter-se no poder. Um dia após prometer realizar eleições até 15 de fevereiro - um mês após o previsto - e de deixar a chefia do Exército antes de assumir um segundo mandato na quinta-feira, Musharraf reprimiu ontem violentamente um protesto na cidade de Rawalpindi e pôs a líder opositora e ex-premiê Benazir Bhutto sob prisão domiciliar para impedir que ela fosse à manifestação.Para os EUA, a popular Benazir poderia ser a tábua de salvação de Musharraf, seu aliado-chave na luta contra o terrorismo. Washington apoiou as negociações entre o presidente paquistanês e a ex-premiê, que acabaram com a volta de Benazir ao Paquistão, após oito anos de auto-exílio. Musharraf anistiou Benazir das acusações de corrupção e negociava um governo compartilhado com a ex-premiê em troca do apoio de seu partido, o maior de oposição.No entanto, Benazir , que já pressionava Musharraf a deixar a farda, rebelou-se contra o estado de emergência que o presidente decretou no dia 3. Para especialistas, a prisão temporária somente deixará Benazir mais fortalecida. "Benazir convocou a manifestação como uma estratégia para aumentar a pressão sobre Musharraf e conseguir uma moeda de troca para negociar com ele. E, como ela é uma política muito esperta, não duvido que alcance seu objetivo", disse ao Estado Frederic Grare, especialista do Carnegie Endowment. "Ainda é muito cedo para dizer quais serão as conseqüências das atitudes de Musharraf , mas é crucial observarmos a reação da população nos próximos dias. Ele pode sair ileso de toda essa situação, mas as manifestações em massa podem representar o maior desafio de sua carreira", disse Grare. Para ele, a principal questão é se o Exército continuará apoiando Musharraf se a situação degenerar."Se lembrarmos que o Exército do Paquistão depôs chefes impopulares em duas ocasiões, acredito que isso pode acontecer de novo se os protestos continuarem", disse ao Estado Rasul Bukhsh Rais, professor de Ciências Políticas da Universidade de Lahore.Para Hassan Abbas, especialista em Paquistão da Universidade de Harvard, "a autocrática e inconstitucional decisão de Musharraf de decretar um estado de emergência levará a uma rebelião civil, já que vários grupos da sociedade, como advogados, jornalistas e ativistas pró-democracia, estão saindo às ruas e desafiando o presidente". Segundo Abbas, Musharraf buscou sufocar um Judiciário independente que ameaçava seu governo e não ajudar em sua luta contra o terrorismo. Musharraf destituiu seis juízes da Suprema Corte, que analisava se ele poderia ter-se candidatado às eleições de 6 de outubro mantendo a chefia do Exército. "Essa ação desesperada pode polarizar ainda mais a população e levar o Paquistão ao caos, algo que só beneficiará os militantes, que ele está tentando combater", disse.Para Teresita Schaffer, diretora do Programa sobre Sudeste Asiático do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, com o governo e o Exército paquistanês preocupados em reprimir a dissidência, os esforços para conter o extremismo podem sofrer um revés, o que teria sérias conseqüências para os EUA e o Paquistão.A Casa Branca tem pressionado Musharraf a restaurar a democracia no Paquistão, mas indicou que não vai reduzir a ajuda ao país. "Os EUA preocupam-se exclusivamente com sua luta contra o terrorismo e só agirão se sentirem que a crescente instabilidade no Paquistão pode ameaçar seus esforços para combater os extremistas", disse Grare, do Carnegie Endowment.

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