Protestos e incertezas ampliam falhas na precária infraestrutura do Iêmen

Manifestações inspiradas na primavera árabe afetam em grande parte o fornecimento de energia elétrica, combustível e água encanada em um dos mais miseráveis países da Ásia; iemenitas buscam agora solução política rápida, que restaure seu cotidiano

Solly Boussidan, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO / SANAA

Desde que as manifestações contra o governo se tornaram violentas na capital do Iêmen, Sanaa, o fornecimento de energia elétrica, combustível e água tornou-se errático. As fronteiras com a Arábia Saudita, ao norte, estão fechadas a estrangeiros e, a leste, o caminho até Omã não é seguro por causa dos grupos de oposição e dos insurgentes islamistas antiocidentais. A vida no Iêmen piorou desde o começo das revoltas no mundo árabe.

A imigração e a polícia secreta locais - aliadas ao presidente Ali Abdullah Saleh, que enfrenta ampla resistência de grupos de oposição liderados pelo líder de uma das mais importantes federações tribais do país, o xeque Sadeq al-Ahmar - tentam barrar a entrada de estrangeiros. Só permitem a passagem de funcionários de ONGs, diplomatas, alguns poucos jornalistas previamente autorizados e visitantes que possam comprovar claramente o motivo de sua viagem. Diversas companhias aéreas que viajam ao país têm cancelado e alterado suas frequências, de modo que ter um bilhete não é garantia de poder viajar.

O país mais pobre do Oriente Médio tem infraestrutura precária, ruas esburacadas, uma imensa frota de carros velhos circulando de forma caótica, em meio a burros, camelos e carroças. A população local é extremamente conservadora e fervorosamente observante das regras do Islã. Praticamente todas as mulheres vestem niqabs ou burcas (vestimentas islâmicas que cobrem todo o corpo ou deixam apenas os olhos à mostra), é praticamente impossível encontrar álcool, apesar de não haver proibição legal para seu consumo. Muitos homens possuem longas barbas e andam vestindo um saião típico, chamado de mauez, adornado por cinturões e facões de ponta curva tradicionais.

Em tempos de insegurança institucional e protestos político-tribais, o número de civis portando rifles e espingardas na rua - algo comum também em tempos de paz - subiu exponencialmente. A região mais afetada da capital é o norte, onde localizam-se o principal aeroporto do país e a Universidade de Sanaa, foco central das demonstrações antigoverno. Temendo pela segurança de suas casas, muitos moradores da cidade improvisaram bloqueios nas entradas de suas ruas, o que tornou a tarefa de circular pela capital um verdadeiro quebra-cabeça.

A situação na capital e no restante do país - teve uma sensível melhora desde terça-feira, quando, após uma campanha local de desinformação, o governo iemenita admitiu publicamente que o presidente do país estava em tratamento na Arábia Saudita. A notícia, que em um primeiro momento pareceu aumentar o fôlego dos aliados de Al-Ahmar, reduziu o nível geral de tensão no país.

"Estamos cansados dessa situação. Falta água, falta gasolina, os preços dos alimentos estão subindo e não temos conseguido encontrar frutas e frango. Ninguém sabe quanto tempo vamos ter de eletricidade a cada dia. É difícil de trabalhar. Os negócios estão parados e as pessoas já estão agindo como se não houvesse lei no país - contratos são quebrados, mercadorias não são entregues, pagamentos são atrasados. As pessoas sabem que as instituições do governo estão fechadas e que você não tem com quem reclamar. Não há turistas, as embaixadas estão fechadas e todos os transportes públicos estão funcionando de forma esporádica. Estamos fartos. Eu gosto e apoio o presidente, acho que o Iêmen está melhor hoje do que antes de Saleh, mas não podemos continuar com essa situação", afirma em tom desolado Ali ibn-Hassan, gerente de um famoso hotel no centro de Sanaa.

O sentimento de Ibn-Hassan parece ser comum a grande parte da população do país, independentemente de apoiarem o governo ou a oposição. Seu colega, Yasir Mansour, explica: "Estamos cansados deste governo corrupto. O presidente está há mais de 30 anos no poder, sua família é milionária, mas quase todos no país mal têm dinheiro para comer e pagar as contas - não me parece algo certo. É hora do povo poder escolher alguém melhor."

A ânsia coletiva por normalidade parece ter surtido algum efeito - ao longo dos últimos dias diversos bloqueios militares foram desmantelados, a proibição geral de que as pessoas não saíssem em sacadas ou subissem nos telhados de prédios foi relaxada e a oposição deixou de atacar diariamente objetivos pró-regime.

Sanaa passou mais da metade da semana com poucos incidentes com armas de fogo e desde a madrugada de quarta-feira praticamente não se escutam tiros e bombardeios pela cidade. Pilotos das companhias aéreas nacionais Yemenia e Felix Airways, que há semanas se recusavam a operar voos antes das 10 horas da manhã por receio de que as aeronaves pudessem ser atingidas por balas perdidas, retomaram as decolagens.

"Não quero nem imaginar o que pode acontecer quando anunciarem que o presidente está de fato retornando ao país. Ou se as forças do xeque Al-Ahmar decidirem que não querem somente apoiar os manifestantes, mas sim tomar o poder. A situação pode piorar muito e muito rápido. Prefiro pensar que vamos voltar aos protestos pacíficos e que vamos encontrar uma solução negociada. Ou quem sabe o presidente decida não voltar", diz Yasir.

CRONOLOGIA

Turbulência iemenita

16 de janeiro

Início

Estudantes pedem renúncia de Ali Abdullah Saleh, há 32 anos no poder

27 de janeiro

Manifestação

Protestos espalham-se pelo país e 10 mil pessoas vão às ruas de Sanaa

2 de fevereiro

Decisão

Saleh desiste de reeleição

26 de fevereiro

Pressão

Centenas de milhares de pessoas protestam pedindo saída de Saleh

20 de março

Destituição

Saleh destitui o governo

23 de abril

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Líder iemenita aceita acordo para deixar poder dentro de 30 dias

27 de abril

Violência

Forças leais a Saleh matam 13 e ferem 200 em protesto na capital iemenita

26 de maio

Perigo

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3 de junho

Ataque

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