Protestos em Missouri se espalham para mais de 100 cidades dos EUA

Violência começou na segunda-feira na cidade de Ferguson, após júri não indiciar policial branco que matou jovem negro

Cláudia Trevisan, de WASHINGTON / CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2014 | 20h31

Após uma noite violenta em Ferguson, no Estado de Missouri, os protestos contra o não indiciamento de Darren Wilson, o policial branco que matou o jovem negro Michael Brown em agosto, se espalharam ontem por mais de 100 cidades americanas. Jay Nixon, governador de Missouri, ordenou reforço no policiamento e 2,2 mil homens da Guarda Nacional foram mobilizados.

Na segunda-feira, um júri concluiu que não há indícios suficientes para o início de um processo criminal contra o policial. Isso significa que, para a maioria dos jurados, Wilson agiu nos limites da lei, em legítima defesa. A decisão revoltou a comunidade local, de maioria negra. O quebra-quebra começou logo após o anúncio: viaturas da polícia incendiadas, lojas saqueadas e tiros disparados para o alto.


Ontem, ativistas confirmaram que novas manifestações estavam programadas para a noite de ontem e madrugada de hoje em 115 cidades dos EUA, incluindo Nova York, Boston, Chicago, Denver, Salt Lake City, Filadélfia e Washington D.C.

Wilson disparou 12 tiros contra Brown na noite de 9 de agosto – 6 atingiram o jovem, que morreu. A principal irritação dos movimentos de defesa dos direitos civis dos EUA é o fato de Wilson nem sequer ter sido indiciado pelo júri de 12 pessoas – 9 brancos e 3 negros –, algo que seria banal em qualquer circunstância. Segundo dados mais recentes do Departamento de Justiça, 162 mil casos federais foram levados a um grande júri em 2010. Apenas 11 foram rejeitados, como em Ferguson.

Relatos. O relato de Wilson sobre os quase dois minutos de seu encontro com Brown descrevem uma cena na qual o policial é ameaçado pelo jovem negro, teme pela sua vida e reage em legítima defesa. Evidências confirmam que eles lutaram dentro da viatura. Segundo o oficial, Brown estava do lado de fora do carro, o agrediu pela janela e tentou pegar sua arma. Mostras do DNA de Brown foram encontradas na arma e na roupa de Wilson.

No depoimento que deu à polícia, no dia seguinte à morte de Brown, o oficial disse ter encontrado o jovem e um amigo caminhando na rua. Wilson teria ordenado que ambos fossem para a calçada, mas não foi atendido.

Segundo o policial, Brown foi na direção do carro e impediu que ele abrisse a porta. Em seguida, os dois se engajaram em uma luta corporal, durante a qual o jovem teria tentado tomar a arma de Wilson. “Eu me senti como uma criança de 5 anos contendo Hulk Hogan”, disse o policial, se referindo a um popular lutador americano.

Depois do enfrentamento e de dois tiros, Brown correu. Wilson disse ter saído do carro e gritado para que ele parasse e deitasse no chão. Em certo momento, o jovem parou e se voltou para o policial. “Ele emitiu um som gutural e tinha a mais intensa agressiva face que eu já vi”, declarou Wilson à polícia no dia seguinte, em entrevista transcrita para o júri.

Segundo o oficial, nesse momento, Brown começou a correr em sua direção. “Ele não parou. Eu disparei múltiplos tiros”, lembrou. O policial afirmou que parou por um instante, voltou a gritar, mas Brown continuou a avançar. “Disparei uma outra série de tiros.”

Brown chega a uma distância que o policial calcula entre 1,8 metro e 2,4 metros. “Disparei mais tiros. Um deles, ou talvez muitos deles, o atinge na cabeça e ele cai ali mesmo.”

Nos últimos três meses, o júri ouviu 60 testemunhas, analisou provas e documentos e escutou entrevistas feitas pelo FBI com pessoas que estavam no local. No entanto, há muitas contradições entre as testemunhas. Alguns dizem que o estudante estava com as mãos para o alto quando recebeu os tiros. Outros corroboraram a versão de Wilson. 

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