Andrees Latif|Reuters
Andrees Latif|Reuters

Protestos em Washington têm 217 pessoas presas

Manifestantes destruíram vidraças e bloquearam vias; polícia respondeu com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral

Altamiro Junior ENVIADO ESPECIAL / WASHINGTON e Cláudia Trevisan CO, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2017 | 20h25

(Atualizada às 21h42)  WASHINGTON - Pelo menos 217 pessoas foram presas nesta sexta-feira, 20, em Washington, onde manifestantes que protestavam contra a posse de Donald Trump enfrentaram-se com a polícia. Seis policiais ficaram feridos. A maioria dos preso fazia parte de um grupo que atacou policiais e propriedades, segundo a polícia de Washington. Agentes responderam com spray de pimenta e gás lacrimogêneo, enquanto grupos atiravam pedras e garrafas. Enquanto isso, no Capitólio, Trump tomou posse com um discurso agressivo e nacionalista, no qual prometeu "devolver o poder ao povo e "acabar com a carnificina americana". 

Milhares de pessoas saíram às ruas para se manifestar contra Trump. A maioria dos protestos foi pacífico e os choques ocorreram quando pessoas com máscaras atacaram lojas e a polícia com pedras e garrafas. Uma limusine teve os vidros quebrados e as portas foram deixadas abertas a poucas quadras da Avenida Pensilvânia, pela qual Trump e sua mulher, Melania, desfilaram do Congresso até à Casa Branca depois da cerimônia de posse. 


Na lateral do carro, manifestantes escreveram “Nós, o povo”, frase que inicia a Constituição americana. Dentro, havia várias taças de champanhe. Cinco manifestantes mascarados sentaram no teto do veículo, gritando contra o republicano e pedindo seu impeachment. “Trump é fascista, precisa ser contido”, disse um deles a jornalistas. Eles pertencem ao DisruptJ20, grupo que havia prometido manifestações mais violentas. 

Manifestantes seguravam cartazes com frases como “pesadelo americano: dia 1”, “vamos impedir Trump”, “Trump é fascista”. A dois quarteirões, havia outra manifestação, mais pacífica, com as pessoas pedindo a saída do presidente e com cartazes contra sua política de imigração.

A posse de Trump foi marcada por uma série de protestos contra as políticas do republicano, que foram concentrados perto da Casa Branca e do Capitólio, onde ocorreu a cerimônia de posse. Oficialmente, a agência que autoriza protestos em praças e parques liberou 22 autorizações. Na posse do segundo mandato de Barack Obama, em 2013, ocorreram menos manifestações e a imprensa dos EUA fala em seis eventos naquele ano. 

Um dos confrontos começou quando policiais do batalhão de choque impediram o avanço de manifestantes rumo ao desfile que teve a participação de Trump. Dois oficiais e uma pessoa que acompanhava a manifestação foram feridos.

No meio da rua, foram jogadas latas de lixo e máquinas que vendem jornais. Uma bandeira vermelha, a cor do Partido Republicano, foi queimada. Alguns manifestantes carregavam litros de leite, usado para reduzir os efeitos do spray de pimenta. Vários usavam preto e máscara.

Os protestos transformaram a posse de Trump na mais violenta e tumultuada da história recente do país, em um sinal das divisões políticas aprofundadas pela campanha eleitoral. Enquanto seus seguidores o defendem de maneira apaixonada, muitos dos opositores o veem como um presidente ilegítimo, que venceu a disputa no colégio eleitoral, mas perdeu na votação direta popular por uma diferença de 2,9 milhões de votos.

Mike Miele, de 59 anos, viajou de Nova York a Washington para assistir à posse de Trump. Metalúrgico aposentado, ele foi seduzido pela promessa de que o bilionário trará empregos industriais de volta para os EUA e impulsionará o crescimento econômico. “Podemos produzir tudo o que precisamos aqui. Não temos de importar nada.”

Na capital para protestar contra Trump, Steve Pearlman, de 69 anos, discordou. “Se os EUA não importarem, também não conseguirão exportar. Esses empregos que você quer de volta serão feitos por máquinas. Então nós produziremos as máquinas”, respondeu Miele. “Por que não podemos fazer iPhones aqui?”, perguntou. “Porque nós teríamos de pagar muito mais por eles”, retrucou Pearlman.

Na opinião de Miele, os manifestantes não entendem a mensagem de Trump. “Eles leem jornais e não escutam Trump”, disse, repetindo a afirmação do novo presidente de que a imprensa é mentirosa. Miele criticou os manifestantes e disse que o protesto contra o novo presidente era “antiamericano”. Os opositores que estavam a seu lado retrucaram com a afirmação de que a liberdade de manifestação é uma das características mais americanas que existem. “Trump é um fascista e uma ameaça a nossas liberdades civis”, opinou Pearlman.

Veterano das guerras do Afeganistão e Iraque, Garry Kerns viajou do Havaí a Washington para assistir à posse de Trump ao lado da mulher, Marissa. Nascida nas Filipinas e vivendo nos EUA há 30 anos, ela espera que o novo presidente deixe para trás os oito anos do governo Obama. “Ele foi o presidente da minha geração que mais provocou divisões em nosso país.”

A poucos passos, o casal Christina e Kevin Moodie olhavam aterrorizados para os próximos quatro anos de governo Trump. “Nós estamos nos movendo rapidamente para um governo fascista e podemos perder os direitos civis que conquistamos”, disse Christina, que tem 65 anos e viajou do Arizona para se manifestar contra Trump. 

O estudante Ryan Adam Myers, de 22 anos, crê que a divisão entre os dois lados reflete as diferenças entre a América rural conservadora e os grandes centros urbanos mais liberais.

“A maioria dos que apoiam Trump é de brancos, que rejeitam uma sociedade inclusiva”, opinou Myers. A seu lado, o amigo Gilberto Aponte Prats afirmou que os EUA vivem um ambiente político parecido ao que precedeu à emergência do fascismo na Alemanha. Mas o alvo agora são os muçulmanos. 

“Ele vai criar empregos, derrotar o terrorismo islâmico e rever os nosso acordos comerciais”, afirmou Merle Miller, que criticou os manifestantes. “Eles são idiotas, preguiçosos e não querem trabalhar.”


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