Protestos fazem Humala mudar gabinete no Peru

Troca de ministros indica que presidente pretende abrir mão da violência e se aproximar de setores sociais para pôr fim aos protestos no país

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h06

O presidente do Peru, Ollanta Humala, reformulou na semana passada seu gabinete pela terceira vez em um ano de governo. Ele quer, de acordo com analistas, se aproximar de movimentos sociais e reverter a queda em sua aprovação - de 53% na posse, caiu de 41% em junho para 36% este mês, segundo o instituto GFK. A instabilidade aumentou após confrontos entre policiais e manifestantes que deixaram cinco mortos no início do mês.

A escolha de Juan Jiménez Mayor - conhecido no país por sua atuação em defesa dos direitos humanos - para presidir o Conselho de Ministros é o maior indicativo de que Humala pretende mudar sua estratégia para amenizar as mobilizações populares contra seu governo sem apelar para a violência.

Jiménez deixou a pasta da Justiça para substituiu o militar reformado Óscar Valdés, considerado o responsável pela violenta repressão aos protestos contra um novo projeto de mineração em Cajamarca e pela imposição do estado de emergência que vigora na região.

Atualmente, de acordo com dados da Defensoria Pública peruana, há 169 conflitos sociais ativos no país e outros 78 "latentes". Ao todo, 17 pessoas morreram em manifestações desde o início do governo Humala. Especialistas concordam que a habilidade em negociar soluções para essas crises determinará o sucesso dos próximos passos de sua gestão.

Para o sociólogo e cientista político Sinesio López, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Peru, a nomeação de Jiménez é uma "correção" de rumo, já que o antigo gabinete estabeleceu uma política de confronto contra os movimentos populares. Segundo López, os novos ministros deverão seguir a tendência do primeiro gabinete nomeado por Humala, "no sentido do diálogo" com os atores sociais.

Segundo o analista, porém, a política deve continuar "instável", pois o presidente não tem uma base partidária sólida nem os melhores quadros para formar o governo. "Ele se apoia muito na equipe econômica", disse López, afirmando que, nesse sentido, o presidente deverá continuar sua política "neoliberal" para tentar manter o desenvolvimento econômico do país - considerado um dos maiores desafios do segundo ano de mandato. Há mais de uma década o Peru registra um índice médio de 6% de crescimento anual.

Na opinião do cientista político Eduardo Toche, do Centro de Estudos e Promoção do Desenvolvimento, não houve renovação no gabinete de Humala, mas apenas uma mudança formal, que não afetará profundamente as questões sociais. Toche afirmou que, assim como Jiménez, a maioria dos novos ministros já atuava no governo em diferentes funções.

"Houve apenas um rearranjo. Isso demonstra o isolamento político do presidente. Na campanha eleitoral, ele tinha uma proposta à esquerda, mas, ao assumir, passou ao centro e depois à direita. Com esse novo gabinete, Humala equilibra-se como um governante de centro-direita."

Para Toche, a nomeação de Jiménez à presidência do Conselho de Ministros poderá não significar uma aproximação do governo com os movimentos sociais, já que, quando ocupou o Ministério da Justiça, ele se mostrou contra a investigação de supostas execuções de terroristas durante o resgate de reféns sequestrados pelo Tupac Amaru na Embaixada do Japão em Lima, em 1997.

"Isso representou uma quebra com o compromisso de Jiménez com os direitos humanos. Agora, ele não tem mais respaldo e pode não inspirar mais a confiança dos movimentos sociais."

A analista política Cynthia Sanborn, da Universidade do Pacífico, é mais otimista com relação ao novo gabinete. Em sua opinião, ele é mais coerente e potencialmente mais unido do que o anterior - além de "formado por pessoas muito capazes em seus campos de atuação". "Falta ao governo liderança política e capacidade de comunicar ao povo aonde se pretende ir e os porquês de certas decisões. Humala é, afinal, um militar sem muita habilidade comunicacional e seus dotes de líder, até agora, não parecem grandes."

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