Protestos forçam Cristina a recuar

Presidente argentina submete ao Congresso polêmico decreto de aumento de impostos sobre exportação agrícola

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2008 | 00h00

Com lágrimas e visivelmente contrariada, a presidente argentina, Cristina Kirchner, anunciou ontem que resolveu buscar o endosso do Congresso para um polêmico aumento de impostos sobre exportações agrícolas. O aumento, que causou um locaute dos ruralistas, foi decretado pelo governo em março e continuará em vigor até que o Legislativo se pronuncie. Ouça o relato de Ariel Palacios Um projeto com o mesmo teor do decreto foi encaminhado ainda na noite de ontem à Câmara de Deputados. A decisão de submeter a medida ao Congresso é um recuo inédito de Cristina. Até ontem, ela havia insistido na cobrança dos pesados tributos, o que causou uma crise sem precedentes com o setor rural, levando o país à escalada inflacionária, à paralisação da atividade econômica e ao enfraquecimento político da presidente.O debate no Congresso era uma exigência dos produtores agropecuários, que há 99 dias estão em pé de guerra com o governo. "Para saber ganhar é preciso saber perder", disse Cristina, com voz grave, em rede de TV. "Quero dar à decisão que tomei (em março), com as faculdades que me confere a lei, um marco ainda mais democrático."Dessa forma, os ruralistas, primeiro setor econômico a desafiar o poder do "casal presidencial" (Cristina e o ex-presidente Néstor Kirchner), conseguem uma vitória parcial. O próximo embate será no Congresso, onde o governo - que tem maioria - tentará emplacar o aumento de impostos. Analistas afirmam que muitos deputados do governo, pressionados por seus eleitores nas províncias agrícolas, tentarão encontrar um ponto intermediário entre o projeto do governo e as exigências ruralistas.Os líderes ruralistas reagiram com cautela ao recuo do governo. Eles o definiram como um passo rumo ao diálogo e informaram que decidirão hoje se suspendem ou não a greve e as outras manifestações de protesto contra os impostos."Finalmente Cristina decidiu aceitar os pedidos da cidadania", disse ao Estado a socióloga Graciela Römer. "É seu primeiro recuo e a primeira vez que desce de seu pedestal de soberba. Agora pode começar uma nova etapa no governo."Nas últimas semanas, Cristina foi pressionada por panelaços que evidenciaram a drástica queda de sua popularidade e a crescente insatisfação da classe média, além do setor rural, com a política econômica. Segundo pesquisa divulgada ontem pela Giacobbe e Associados, a imagem positiva da presidente despencou de 30% em abril para 19,9%. Cristina é apontada como fantoche de Kirchner, líder do governista Partido Justicialista (peronista). Nesse cenário, a previsão de meses atrás de que o governo obteria uma vitória confortável nas eleições parlamentares de 2009 cai por terra. O problema para os Kirchners é que essas eleições, realizadas no meio do mandato, costumam definir o futuro vitorioso das presidenciais, dois anos depois. Para o analista Rosendo Fraga, uma derrota na eleição parlamentar de 2009 "dissolverá o poder de Cristina".Um dos sinais do debilitamento dos Kirchners é a fuga de aliados. Governadores com medo de ser contagiados pelo desgaste afastaram-se nos últimos dias do casal presidencial. Os analistas ressalvam que, se a crise com os ruralistas for superada, a perda de aliados poderá ser detida.Enquanto isso, os partidos de oposição continuam desarticulados. O principal foco opositor está dentro do próprio peronismo e é liderado pelo ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003). Em 2003, Duhalde apadrinhou a candidatura presidencial de Néstor Kirchner, na época um desconhecido. Kirchner venceu graças ao aparato fornecido por Duhalde. Mas, ao tomar posse, desvencilhou-se do ex-padrinho e o isolou politicamente. Duhalde esperou meia década. Agora, prepara a revanche.Kirchner concedeu ontem uma inesperada entrevista coletiva - a primeira desde a campanha presidencial de 2003 -, na qual vinculou os ruralistas à "velha direita golpista". O ex-presidente confirmou que hoje comandará uma manifestação na Praça de Maio, na frente da Casa Rosada, para respaldar o governo de sua mulher e "defender a democracia".FRASESCristina KirchnerPresidente argentina"Para saber ganhar é preciso saber perder. Quero dar à decisão que tomei um marco ainda mais democrático. Vou enviar ao Parlamento um projeto de lei (que aumenta os impostos para as exportações agrícolas)."

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