Carlos Vera/Reuters
Carlos Vera/Reuters

Protestos marcam 1º reencontro dos mineiros chilenos no local da tragédia

Sobreviventes do soterramento na Mina San José participam de missa de ação de graças no Acampamento Esperança, enquanto 368 trabalhadores da mesma empresa protestam por pagamento de direitos trabalhistas, indenizações e 70 dias de salários atrasados

, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

COPIAPÓ, CHILE

Alguns dos 33 mineiros que passaram 70 dias presos a quase 700 metros de profundidade na Mina San José, no Deserto do Atacama, voltaram ontem ao local da tragédia para participar de uma missa de ação de graças, acompanhados de parentes e curiosos.

A cerimônia foi marcada pela emoção e a gratidão dos mineiros salvos, mas também pela revolta de 368 trabalhadores da empresa San Esteban - responsável pela mina onde os 33 foram soterrados - que protestaram contra o não pagamento de seus salários, além de indenizações e outros direitos trabalhistas que ficaram pendentes desde que a empresa foi fechada por decisão da Justiça. "Não somos 33, somos 300. E quem nos tira do buraco? Estamos há 70 dias sem trabalho. Não nos roubem", diziam alguns dos cartazes erguidos pelos trabalhadores, que tiveram de ser contidos pela polícia.

As famílias dos mais de 300 trabalhadores disseram que permanecerão acampadas no local, que foi rebatizado por elas como Acampamento Esperança 2. O único dos 33 mineiros a deixar a missa para falar com seus antigos companheiros de trabalho foi o jovem Jimmy Sánchez, de 19 anos. Ele caminhou até um grupo que segurava os cartazes depois de ouvir de um deles: "Ajudem-nos. Nós tiramos terra para resgatá-los."

Os outros permaneceram alheios ao tumulto, lembrando com emoção dos dias de incerteza passados sob a terra. "É bonito estar onde estiveram nossos parentes, esperando por nós", disse Luis Urzúa, apontado como um dos líderes.

Mas, ainda ontem, pelo menos dois mineiros questionaram a versão de que Urzúa tenha, de fato, liderado o grupo. Apesar do pacto de silêncio acordado entre eles, Sánchez e Yonni Barrios, criticaram Urzúa. "Não me parece correto que digam que ele (Urzúa) foi o líder, porque não foi. Ele era o chefe do turno, mas depois perdeu o controle. Ele não se sentiu capacitado", disse Barrios. "Ele não era capaz de dirigir o grupo. Nos momentos mais críticos, ele não esteve conosco."

Publicidade. Assim como o questionamento sobre o verdadeiro papel de Urzúa, outros detalhes da operação começam a emergir na medida que a euforia do resgate vai passando. Ontem, o jornal chileno El Mercurio revelou que o presidente do Chile, Sebastián Piñera, cogitou de descer ao fundo da Mina San José para "buscar" os sobreviventes do acidente.

"Imagino que você não esteja pensando em descer nessa cápsula", teria dito a Piñera a primeira-dama, Cecilia. "E por que não? Qual é o problema?", teria respondido o presidente, segundo o jornal chileno.

Piñera também teria ordenado que a operação fosse executada de modo a permitir a captação de imagens pela TV. "Vocês não entenderam a magnitude disso. É um momento de glória para o Chile. Não há nada a esconder. É preciso mostrar isso ao mundo." / REUTERS, EFE e AP

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