Protestos na Hungria levam à reflexão sobre futuro do país

A maior onda de manifestações naHungria desde a queda do comunismo, que culminou no sábado à noite com apresença de dezenas de milhares de pessoas em ato em Budapeste,continua e desemboca em um processo de reflexão sobre o futuropolítico do país. Cerca de mil pessoas se reuniram na tarde deste domingo em frente à sede doParlamento húngaro, na praça Kossuth, em Budapeste, sem queincidentes fossem registrados. Um grupo de dez personalidades pretende entregar à presidente doParlamento, Katalin Szili, um memorando com uma série dereivindicações. Entre elas está a formação de um governo detransição e a convocação de novas eleições, caso o primeiro-ministrosocial-democrata Ferenc Gyurcsány não deixe o cargo. O vazamento de uma gravação na qual Gyurcsány admitia terenganado o eleitorado "durante um ano e meio" - tempo em que esteveà frente do governo - para ganhar as eleições parlamentares de abrilfoi o estopim dos protestos dos últimos dias nas ruas de Budapeste. Combatentes da revolução de 1956, contra a ocupação soviética,criticaram os distúrbios da semana passada protagonizados pormembros da extrema direita, inclusive integrantes de torcidasorganizadas de equipes de futebol de Budapeste. Os veteranosqualificaram os atos de "desrespeitosos" à memória histórica, já quebandeiras e símbolos da luta pela liberdade contra o poder soviéticoforam usados. Sábado foi o sétimo dia consecutivo de manifestações. Esta foi aterceira noite consecutiva em que não foram registrados distúrbiosna cidade. Segundo a agência de notícias húngara MTI, 141 pessoaspermanecem detidas por atos de vandalismo cometidos na semanaPassada. Os resultados das manifestações até o momento são contraditórios,já que, segundo pesquisas, 43% dos húngaros consideram que oprimeiro-ministro deveria deixar o cargo. Outra enquete, entretanto,diz que 57% dos entrevistados acreditam que Gyurcsány não é oprimeiro político a mentir e, portanto, não é responsável pelaCrise. Pál Schmitt, vice-presidente da maior força de oposição, opartido conservador Fidesz, participou dos protestos e disse aosmanifestantes que a "Hungria vive uma crise moral". Por sua vez, os social-democratas, governistas, acusam seu maiorrival político de estar por trás das manifestações. Gyurcsányafirmou neste domingo que a presença dos dirigentes de centro-direita napraça Kossuth anima os radicais, o que "é uma verdadeira tragédia"para o país. Os analistas políticos, por sua vez, também estão divididos. Ocomentarista András Girou-Szász disse que Gyurcsány "se encontra emuma crise moral", e, por isso, considera que o premier deveriaassumir a responsabilidade e renunciar. O analista político Krisztián Szabados disse que "o Fidesz egrupos de extrema direita" estavam por trás das manifestações. "Desde o momento em que se atirou a primeira pedra, o Fidesz estáem uma situação delicada", disse. Os manifestantes, que a princípio haviam se reunidoespontaneamente, formaram na quarta-feira o Comitê Nacional Húngaro2006 (MNT) que tenta controlar a violência com seu próprio "serviçode segurança". O MNT anunciou neste domingo que construirá com televisores uma "pirâmideda mentira" diante do Parlamento. A pirâmide, feita de televisores,simboliza a censura aos meios de comunicação, e foi qualificada de"pós-moderna" pelos próprios organizadores. O primeiro-ministro reiterou nos últimos dias que não renunciaráe que levará adiante o programa de saneamento econômico que tem oobjetivo de reduzir o déficit público para 3% até 200. Neste ano, odéficit será de 10,1%, índice muito maior do que o exigido peloscritérios do tratado de Maastricht.

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