Javier Torres / AFP
Javier Torres / AFP

'Protestos no Chile são fruto de insatisfação generalizada', diz economista

Analista avalia que apesar da economia chilena não ser ruim, 80% da população que corresponde à parcela mais necessitada é afetada diretamente pelas medidas econômicas

Entrevista com

Luis Eduardo Escobar, economista

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 07h00

Protestos em diversas cidades e regiões tomam conta do Chile desde o dia 18, mesmo com a reação feita pelo governo do presidente Sebastián Piñera em decretar estado de emergência e toque de recolher nas ruas. A revolta sob a justificativa do aumento de quase 4% da tarifa do transporte público já deixou ao menos 15 mortos, mais de 200 feridos e mais de 2 mil detidos. 

Uma proposta para congelar o reajuste dos preços encaminhada com urgência por Piñera já foi aprovada na Câmara e no Senado, mas analistas avaliam que o motivo seja somente a gota d'água em meio a diversas frustrações.

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Ao Estado, o economista e diretor do Centro de Estudos de Desenvolvimento (CED) do Chile, Luis Eduardo Escobar, que foi coordenador econômico do adversário de Piñera nas últimas eleições, Alejandro Guillier, classificou as manifestações como as maiores desde a ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990). Ele avalia que, apesar de haver uma situação econômica estável no País, ela não é suficiente para resolver os problemas enfrentados pela população mais pobre. 

Se o aumento das tarifas do transporte público é somente um detalhe que levou aos protestos, como está a situação econômica chilena?

A situação econômica no Chile não é ruim. Até antes dos protestos, as projeções eram de que a economia chilena iria crescer 2,5%, o que não é espetacular, mas é uma taxa de crescimento bastante aceitável perante a situação econômica internacional. A inflação está controlada, abaixo de 3% ao ano. O desemprego também não está muito alto, apesar de ter aumentado gradualmente nos últimos meses. É uma situação medíocre, mas não ruim. O aumento dos 30 pesos na tarifa do transporte público não é a causa fundamental dos protestos nas ruas. É a gota d'água. Na verdade, é uma série de aumentos nos preços que foi aplicada pelo governo nos últimos meses, como o custo da eletricidade, é a quarta vez em dois anos em que se aumenta o preço das tarifas de transporte, o custo da água potável, além do aumento regular nos preços de seguros de saúde.

Houve aumento nos salários?

Os salários estavam aumentando cerca de 2% ao ano. Essa taxa reduziu, passando para 1% ao ano. A situação não é ruim, mas é pouco satisfatória. Não é que o Chile tenha problemas sérios em níveis macroeconômicos, mas os grupos com salários mais baixos enfrentam o aumento crescente dos preços, e com isso vem a impotência frente a um sistema que funciona à margem da população passando por necessidades. 

É possível compararmos a crise no Chile com aquela vista no Equador, em Honduras, e até em países fora da América Latina, como o Líbano?

O Equador está passando por uma situação macroeconômica muito mais complicada. Diria que talvez algo mais parecido com a situação chilena seriam os coletes amarelos na França, onde dentro de uma situação econômica que não é ruim, onde o aumento dos preços dos combustíveis levou à uma pressão social muito importante. Esse é um antecedente muito mais parecido com o caso do Chile. 

Mas também há uma motivação política, com uma origem econômica, certo?

Sim. As pessoas reagiram de maneira impactante às forças políticas tradicionais. Os partidos políticos discutem no Congresso as reformas com o governo do presidente Piñera, e negociam as normas, sem se dar conta de que as coisas afetam as pessoas, que saíram às ruas contra esses grupos. Se vê muitos jovens nos protestos desses últimos dias, de forma muito pacífica no espaço público, e eles não votaram nessas últimas eleições. Então, não é um protesto contra a ordem política tradicional, mas sim de insatisfação generalizada. 

No Brasil, passamos por uma situação similar em 2013, também calcada no aumento das tarifas do transporte público, que marcaram um estado de pré-crise generalizada e duradoura. Isso é possível no Chile?

Acredito que isso seja altamente provável, sobretudo se o sistema político e institucional não for capaz de responder ao que parece ser os motivos principais de insatisfação das pessoas. Diria que isso tem a ver com o péssimo sistema de pensões que existe no Chile, a má atenção ao sistema de saúde pública, a séria dificuldade que o sistema educacional público enfrenta, utilizado por boa parte da população. Também há problemas em nível universitário. Durante o governo da ex-presidente Michelle Bachelet, falou-se em educação gratuita para 80% das pessoas, com menor renda. E isso não funciona bem. Se impôs uma limitação às universidades, onde só entram estudantes que não tenham tido problemas no histórico. As pessoas sentem que o sistema não as protege frente aos desafios que a vida cotidiana apresenta. As coisas funcionam de maneira muito desigual. Aqueles 80% de pessoas com renda mais baixa no Chile têm dificuldades para chegar ao fim do mês, estão altamente endividados. Isso faz com que as pessoas se incomodem. 

Falando sobre o sistema educacional, o movimento estudantil é uma peça chave dos protestos deste ano?

Muitos jovens, tanto do ensino médio quanto universitários estão nas ruas. E creio que eles não sofram diretamente a maioria dos problemas que atingem a maior parte da população. Mas eles observam em suas casas, os avós que recebem pensões baixas e vivem na pobreza, os pais que têm problemas para pagar as contas no fim do mês, o alto nível de endividamento das famílias. Os universitários tradicionalmente são porta-vozes da insatisfação social. E creio que neste caso não foi diferente. É importante ressaltar que muitas donas de casa também foram às ruas para protestar, e ajudaram a organizar seus bairros para se defender das pessoas que realizam saques, além de garantir que os protestos sejam pacíficos. 

Qual é o significado dessas manifestações em uma perspectiva história no Chile?

É uma coisa surpreendentemente massiva. Creio que o Chile não viu coisa parecida desde os protestos contra a ditadura militar. As pessoas desafiam os militares e a polícia nas ruas, coisa que não ocorria no governo militar, porque sabiam que os militares disparavam. É uma coisa que tem um potencial verdadeiro para levar a uma revolução. 

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