Protestos nos EUA continuam e grupo invade a prefeitura em Saint Louis

Manifestações contra decisão de não indiciar o policial branco pela morte de jovem negro são realizadas em 170 cidades

Cláudia Trevisan, Enviada especial/ ferguson, EUA, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2014 | 20h32

A polícia de Missouri usou spray de pimenta para dispersar um grupo de manifestantes que tentou invadir ontem a prefeitura de Saint Louis em protesto contra a decisão de um grande júri de isentar o policial Darren Wilson pela morte do jovem negro Michael Brown. Três pessoas foram presas.

Ontem foi o segundo dia de protestos no centro de Saint Louis, em cuja região metropolitana está localizada Ferguson, cidade de 21 mil habitantes que foi o centro das manifestações ocorridas desde a morte de Brown, no dia 9 de agosto.

Depois da violência na noite de segunda-feira, a polícia ampliou sua presença em Ferguson, o que reduziu a força dos protestos. A Rua West Florissant, que era o epicentro da atividade na cidade, está bloqueada desde terça-feira. Todos os seus acessos estão fechados com as fitas amarelas usadas pela para demarcar cenas de crimes. Só moradores e donos de lojas localizadas na rua são autorizados a entrar.

A manifestação de Saint Louis coincidiu com a realização de protestos em cerca de 170 cidades americanas nos últimos dois dias. Os pais de Brown, Michael Brown e Lesley McSpadden, participarão hoje em Nova York de um culto de Ação de Graças com as famílias de outros dois negros mortos recentemente pela polícia: Eric Garner, que morreu em julho depois de ser imobilizado à força, e Akay Gurley, morto a tiros na semana passada no Brooklyn.

Frustração.Milhares de pessoas marcharam pelas ruas de Manhattan ontem gritando o slogan “Sem justiça, sem paz”, repetido em todo o país. Em Ferguson, jovens manifestavam sua frustração diante de uma história familiar que se repete com dolorosa frequência.

“Não vai acontecer nada. Eles continuarão a matar garotos negros como pombas”, disse a enfermeira Althea Mitchell. Na noite de terça-feira, ela protestava com um pequeno grupo em frente ao Departamento de Polícia de Ferguson. A seu lado estava o marido, Leo Cotton, de 24 anos, não muito mais velho do que Michael Brown. “Eu tenho problemas constantes com a polícia só porque sou um negro caminhando pela rua.”

Nick Walker, de 38 anos, disse que sentia raiva pela decisão do júri, mas não foi surpreendido. “Todos os dias a polícia mata negros”, disse Walker. Segundo dados do FBI, a polícia matou 426 suspeitos em 2012, dos quais 31% eram negros. O porcentual supera os 13% de presença dos negros na população americana e é equivalente a 132 pessoas, uma morte a aproximadamente cada três dias.

“Eu sinto a discriminação da polícia a cada vez que dirijo meu carro, que vou ao trabalho, que saio de casa. Sou um alvo pela cor da minha pele, pela maneira como me visto”, observou Walker. Em sua opinião, a consequência mais significativa da morte de Brown pode ser a exigência de que policiais usem câmeras em seus uniformes registrando suas ações, medida vista como uma forma de conter abusos.

“Nada deveria ter ocorrido da maneira que ocorreu”, afirmou Kayla Farmer, de 15 anos, que participava pela segunda vez de um protesto contra a morte de Brown. “Eu não sabia o que esperar do grande júri, mas me sinto frustrada com a decisão.” 

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