'Protestos ofuscam a Primavera Árabe'

Para francês, especialista no mundo muçulmano, Ocidente está valorizando demais manifestações que são limitadas

Entrevista com

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h07

Há dez dias, as atenções do massacre de civis e da guerra civil na Síria migraram para os protestos antiamericanos no Egito e na Líbia, que resultaram na morte do embaixador americano Christopher Stevens. Ainda assim, o Ocidente deveria estar mais otimista com os resultados da Primavera Árabe do que com a ira de minorias no mundo muçulmano.

Essa é a opinião do cientista político francês Stéphane Lacroix, do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris. De acordo com ele, as manifestações contra o filme Inocência dos Muçulmanos e as charges do tabloide Charlie Hebdo são eventos menores. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Como o senhor avalia a decisão do governo da França de fechar embaixadas, escolas e centros culturais em 20 países muçulmanos na sexta-feira?

Creio que há nessa decisão um jogo perigoso, o de exagerar manifestações que foram pequenas e limitadas na maior parte do mundo.

A morte do embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Christopher Stevens, não justifica essa preocupação?

É claro que as mortes em Benghazi foram dramáticas, ainda mais no que diz respeito à morte do embaixador Chris Stevens. No entanto, os protestos foram limitados. Em todos os países em que foram realizados, nenhuma manifestação passou de três mil pessoas, como no Cairo. Ou foram ainda menores em outros países. Os radicais que estão se manifestando são minorias que não representam o conjunto da sociedade. A maioria está chocada, é claro, mas preserva o sangue frio.

Por que essa maioria não se envolve nas manifestações anti-Ocidente?

Porque eles compreendem que o filme Inocência dos Muçulmanos, e agora as charges na França, são uma armadilha na qual não querem cair. Repito: os envolvidos nos protestos são pessoas radicais. No caso da Líbia armada pós-revolução, o protesto de uma minoria trouxe consequências dramáticas. Ninguém está feliz com essa história de filme e de caricaturas, mas a ira anti-Ocidente está longe de ser generalizada.

O filme 'Inocência dos Muçulmanos' e as charges do 'Charlie Hebdo' têm naturezas muito distintas. O senhor acha que os muçulmanos percebem essas nuances?

Você tem razão, não estamos no mesmo debate. O filme nos Estados Unidos foi feito por fundamentalistas cristão coptas e se enquadra na lógica da guerra de religiões. Na França, as charges do tabloide sensacionalista Charlie Hebdo são desenhos insultantes. O tabloide considera que faz parte da laicidade de combate na França, partindo do princípio de que não existem tabus, nem mesmo na religião. Eles têm direito de fazer o que fizeram, porque a lei francesa os protege. No entanto, não é certo que nesse contexto delicado a mensagem vá ser compreendida no mundo muçulmano.

O senhor acredita que as manifestações de sexta-feira podem ter o mesmo peso dos protestos da semana passada?

Eu não gosto muito de fazer prognósticos dessa forma, mas creio que os eventos da semana passada, relacionados ao filme Inocência dos Muçulmanos, podem ter sido mais mobilizadores, porque vinham de cristãos coptas vivendo no exterior. No contexto egípcio, o fato de haver cristãos radicais por trás deve ter incitado grupos salafistas especializados na retórica anticopta. No caso das charges de Maomé do Charlie Hebdo, não há coptas por trás. Veremos como serão interpretadas.

O senhor é um crítico da cobertura feita pela mídia internacional, certo?

Sim, eu creio que a mídia deve ficar atenta. O prisma midiático transformou essas manifestações ínfimas em algo do porte da Primavera Árabe. É claro que houve a morte do embaixador americano Christopher Stevens, o que chamou muito a atenção. Entretanto, em termos de representatividade na população muçulmana local, essas manifestações não querem dizer nada.

O senhor considera que essas manifestações desviaramm o foco dos avanços da Primavera Árabe?

Sim, sem dúvida desviaram. A despeito dessas manifestações, os resultados da Primavera Árabe, tanto no Egito quanto na Líbia, deveriam nos deixar otimistas. Mesmo sendo os dois países em que os protestos antiamericanos tiveram início. É uma pena que essas polêmicas que envolvem minorias tão pequenas escondam processos políticos muito mais importantes que estão em curso. Nos países que passaram pela Primavera Árabe, há novos sistemas políticos emergindo que se parecem cada vez mais com regimes democráticos.

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