Protestos pelo desaparecimento de estudantes persistem

Manifestantes ocuparam dezenas de câmaras municipais, tomaram caminhões de entrega e fizeram protestos em dezenas de cidades do sul do México nesta quinta-feira, exigindo que se intensifiquem as investigações sobre o desaparecimento de 43 estudantes secundaristas. Os estudantes foram presos pela polícia municipal de Iguala, no estado de Guerrero, em 26 de setembro, e supostamente entregues pelos policiais a uma gangue de criminosos locais.

Estadão Conteúdo

14 Novembro 2014 | 17h12

Militantes de um sindicato de professores ocuparam as câmaras municipais de 14 cidades no estado de Michoacán. No estado de Oaxaca, outros sindicalistas tomaram quatro caminhões de entrega e bloquearam um shopping center.

Na quarta-feira, manifestantes atearam fogo à Assembleia Legislativa do estado de Guerrero, onde os estudantes desapareceram. Ao longo de toda a semana, manifestantes bloquearam as ruas da cidade e incendiaram vários prédios do governo, além da sede local do Partido Revolucionário Institucional (PRI), do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto.

De acordo com procuradores da Justiça, os 43 estudantes do distrito de Ayotzinapa foram presos pela polícia municipal de Iguala e entregues a uma gangue local para serem mortos. A ordem teria partido do então prefeito de Iguala, José Luis Abarca, porque os estudantes estariam se preparando para atrapalhar um evento público de que participaria sua mulher, Maria de los Angeles. Naquela noite de 26 de setembro, seis pessoas foram mortas em Iguala por policiais municipais e homens mascarados.

Abarca e sua mulher fugiram logo depois daqueles incidentes e ficaram escondidos até 4 de novembro, quando foram presos em uma casa em Iztapalapa, nos arredores da Cidade do México. Ambos foram indiciados nesta quinta-feira por um juiz federal sob a acusação de terem ordenado os seis assassinatos ocorridos em setembro. O juiz também estuda indiciar o casal pelo sequestro dos estudantes.

O procurador-geral do México, Jesús Murillo Karam, disse que com base em confissões de três membros da gangue Guerreiros Unidos detidos recentemente, os 43 estudantes estão mortos e tiveram seus corpos queimados.

Desde 2006, quando o então presidente mexicano Felipe Calderón declarou a "guerra às drogas", pelo menos 100 mil pessoas morreram em incidentes relacionados a esse conflito; 22 mil desaparecimentos de pessoas continuam sem solução pelas autoridades.

Segundo o analista político Jorge Chabat, do instituto de pesquisas Cide, este é um momento de "grande vulnerabilidade" para Peña Nieto. O presidente está sendo investigado porque uma mansão na capital mexicana que é usada por sua família pertence a uma grande empresa cujo dono obteve grandes contratos com o governo. O presidente nega as acusações de ter beneficiado o empresário em troca de favores.

Nesta quarta-feira, depois de atearem fogo a vários prédios governamentais em Chilpacingo, centenas de manifestantes fizeram uma passeata até a praça central da cidade, onde passaram a noite em vigília. Na quinta-feira, pais e colegas dos 43 estudantes desaparecidos iniciaram uma caravana que pretende percorrer todo o México, na tentativa de obter apoio para sua causa. As caravanas devem chegar à Cidade do México no dia 20 de novembro, em pleno feriado do Dia da Revolução.

"Enquanto os jovens continuarem desaparecidos, este movimento continuará vivo", disse o advogado e ativista pelos direitos humanos Vidulfo Rosales, que está aconselhando as famílias dos estudantes. "Se o Estado não devolver nossos camaradas, isso poderá sair do controle. A luta tem sido pacífica até agora, mas poderá não continuar assim", advertiu o estudante secundarista Walter Añorve, um dos líderes dos protestos em Guerrero.

Erick de Santiago, diretor do movimento "Fale bem de Aca", disse que 14 mil reservas em hotéis do balneário de Acapulco, a uma hora de distância de Chilpacingo, foram canceladas depois de os estudantes desaparecerem. Acapulco depende do turismo e é a cidade economicamente mais importante de Guerrero.

"Este estado já teve muitos massacres. Mas a situação agora é muito mais intensa do que no passado. A raiva e a indignação estão fortes. Neste momento, o estado é um barril de pólvora", disse Añorve. Nos anos 1970, durante a chamada "guerra suja" contra movimentos de esquerda, o Exército mexicano suprimiu vários grupos guerrilheiros que atuavam nas montanhas de Guerrero. Em 1988, depois da eleição do presidente Carlos Salinas de Gortari, considerada fraudulenta por muitos, dezenas de moradores das aldeias do estado foram mortos pela polícia.

Em 1996, policiais massacraram em uma estrada rural 17 agricultores desarmados que se dirigiam a uma manifestação de protesto. Em 1998, soldados mataram 11 líderes comunitários que supostamente estavam reunidos com guerrilheiros em uma escola. Ativistas do movimento pelos direitos humanos dizem que pelo menos alguns deles pareciam ter sido executados. Fonte: Dow Jones Newswires.

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