EFE/ ESTAILOVE ST-VAL
EFE/ ESTAILOVE ST-VAL

Protestos por fim da corrupção no Haiti deixam ao menos 6 mortos 

Parlamento haitiano publicou em 2017 um relatório no qual envolve ex-funcionários do país em supostas irregularidades no uso dos fundos do Petrocaribe, mas até agora ninguém foi processado por esse caso, no qual foram desviados mais de US$ 2 bilhões

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2018 | 16h26

PORTO PRÍNCIPE - A capital haitiana, Porto Príncipe, amanheceu nesta segunda-feira, 19, praticamente paralisada após a série de protestos de domingo, que ocorreram em várias cidades do país, contra a corrupção e a impunidade que deixaram ao menos seis mortos e cinco feridos, segundo um balanço da Polícia. Os organizadores dos protestos disseram que o saldo foi de ao menos 11 mortos e 45 feridos. 

Na capital haitiana, as ruas amanheceram quase vazias um dia depois de a Polícia jogar gás lacrimogêneo e atirar para o alto para dispersar os manifestantes que tentavam chegar ao Parlamento ao fim da manifestação.

Veículos de imprensa locais informaram que vários departamentos do país também amanheceram paralisados com escolas fechadas e vias bloqueadas. Em declarações à imprensa, o porta-voz do governo, Eddy Jackson Alexis, fez hoje um chamado à população para voltar às escolas e a seus locais de trabalho, mas a maioria optou por permanecer em casa. 

A mobilização aconteceu em diferentes pontos do país, sob um forte esquema policial, para exigir do governo que esclareça o uso supostamente fraudulento dos fundos do Petrocaribe, programa pelo qual a Venezuela fornece petróleo ao país em condições especiais.

O protesto de ontem coincidiu com a comemoração do 215º aniversário da batalha de Vertières contra as tropas francesas, que levou à independência do país, atos que aconteceram na capital com a presença do presidente, Jovenel Moise, que não viajou para Cabo Haitiano, local do confronto.

Em mensagem transmitida pela televisão após colocar uma coroa de flores no museu do Panteão Nacional, Moise fez um apelo ao diálogo. "É com a união, a paz e o diálogo que poderemos avançar", disse o presidente, cuja renúncia é reivindicada por alguns grupos da oposição, aproveitando esta ação de protesto. Esses grupos, entre eles a coalizão Sector Democrático y Popular, pediram paralisação das atividades no país. 

O líder opositor Moise Jean Charles afirmou em Cabo Haitiano, em entrevista à imprensa, que só com a saída do presidente do poder haverá um julgamento do caso Petrocaribe. "Jovenel tem de sair, não há outra opção. Ele é um obstáculo para a estabilidade e a paz. Ele e os seus amigos gastam milhões de dólares quando estamos vendo que outros estão morrendo de fome. Não é possível que ele siga como presidente, e vamos continuar com as mobilizações até que ele vá embora", afirmou Charles.

Para um dos manifestantes, Jean Cinesatre, "com milhares de pessoas nas ruas todos podem ver que o presidente perde sua credibilidade." 

"Isto é uma revolução da juventude que quer que as coisas mudem rapidamente, começando pelo presidente, que não quer lutar contra a corrupção", disse à agência EFE.

O Haiti vive uma forte crise econômica, e a moeda nacional, o gourde, está em queda livre em relação ao dólar, enquanto a inflação está na casa dos 14% ao mês desde o início do ano, e há um alto índice de desemprego, circunstâncias que, somadas ao escândalo de corrupção do Petrocaribe, geraram em uma grande parte da população desconfiança na capacidade do atual Governo para melhorar a situação.

O Parlamento haitiano publicou em 2017 um relatório no qual envolve ex-funcionários do país em supostas irregularidades no uso dos fundos do Petrocaribe, mas até agora ninguém foi processado por esse caso, no qual foram desviados mais de US$ 2 bilhões, segundo uma investigação do Senado.

Em outubro, o presidente haitiano fez mudanças no seu governo, substituindo seu chefe de gabinete e o secretário-geral da presidência, envolvidos no caso, segundo a investigação.

Dias depois, o primeiro-ministro, Jean Henry Ceant, reiterou o compromisso do governo para que as supostas irregularidades na gestão dos fundos de Petrocaribe sejam averiguadas, mas até o momento não há informações sobre avanços a respeito. / EFE

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