AP Photo/Rahmat Gul
AP Photo/Rahmat Gul

Protestos se espalham enquanto vice-presidente organiza resistência contra o Taleban

Enquanto dezenas de milhares de afegãos estão tentando escapar do país, muitos mais ficaram para trás, determinados a ter uma voz sobre o tipo de estado em que vivem

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 08h16
Atualizado 19 de agosto de 2021 | 15h41

Manifestantes saíram às ruas para protestar contra o domínio do Taleban pelo segundo dia seguido, nesta quinta-feira, 19, desta vez marchando em Cabul, inclusive perto do palácio presidencial, de acordo com vídeos feitos por jornalistas locais e testemunhas. Os atos ocorrem no feriado do Dia da Independência, que comemora o tratado de 1919 que pôs fim ao domínio britânico sobre o Afeganistão. Ao mesmo tempo em que crescem os protestos populares contra o Taleban, informações sobre a organização de uma resistência armada ao domínio do grupo começam a surgir.

A resposta do Taleban aos protestos tem sido implacável, segundo os relatos vindos do Afeganistão. Em um dos protestos em Cabul, cerca de 200 pessoas se reuniram antes de serem violentamente reprimidas por combatentes do grupo. Na cidade de Khost, no sudeste do país, os rebeldes decretaram um toque de recolher após manifestações. Em Asadabad, no oeste afegão, testemunhas afirmam que a repressão resultou em morte.

Uma pessoa ouvida pela agência Reutes afirmou que  combatentes Taleban atiraram contra os manifestantes que agitavam uma bandeira da República afegã durante o protesto em Asadabad. Não ficou claro se as mortes ocorreram pelos tiros ou pelo corre-corre que eles provocaram.

A nova onda de rebeldia ocorre apenas um dia depois de protestos eclodirem em outras duas cidades, também com relatos de repressão por parte do Taleban contra populares e jornalistas. Em Jalalabad, no leste, um protesto que tentava impedir a retirada da bandeira oficial do país - preta, vermelha e verde - pela bandeira branca do Taleban foi duramente reprimido. Pelo menos uma pessoa morreu.

Em um vídeo gravado no momento da confusão é possível ver uma multidão carregando as bandeiras do país e, posteriormente, o som de tiros. Pelas imagens, não é possível afirmar se alguém se feriu. 

A bandeira afegã se tornou um símbolo de rebeldia, já que os militantes do Taleban têm sua própria bandeira - branca, com inscrições islâmicas -  que também representa o Emirado Islâmico, que foi implementado pelo grupo quando esteve no poder. Nos protestos desta quinta em Cabul, uma procissão de carros e pessoas transportava bandeiras pretas, vermelhas e verdes.

"Saúdem aqueles que carregam a bandeira nacional e assim representam a dignidade da nação e do país", escreveu no Twitter o ex-vice presidente do país, Amrullah Saleh.

Ao longo de mais de duas décadas, o Taleban provou que eles sabiam como fazer uma insurgência. Nos últimos cinco dias, surgiram sinais ameaçadores de que ainda não aprenderam a governar um país.

Saleh foi apontado nesta quinta-feira como líder da resistência armada que está se formando contra o Taleban no vale do Panshir - zona de difícil acesso à sudoeste de Cabul, que nunca ficou sob poder do Taleban e nem dos soviéticos, durante sua dominação do país - por autoridades russas.

O Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, afirmou que a resistência está sendo organizada pelo vice-presidente e por Ahmad Masud, filho do comandante Masud, um emblemático líder antitaleban falecido nos anos 1990. 

Saleh, que foi vice-presidente do governo de Ashraf Ghani, prometeu não aceitar o governo Taleban e se refugiou no vale de Panshir. Masud também anunciou que fará oposição ao grupo e reivindicou a luta por liberdade liderada por seu pai, herói da resistência contra a União Soviética e posteriormente contra o próprio Taleban - e morto em um ataque dois dias após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"O Taleban não controla todo o Afeganistão. Há informações que chegam de Panshir [ao nordeste de Cabul] onde se concentram as forças da resistência do vice-presidente Saleh e de Ahmad Masud", disse Lavrov.

A Rússia tem lidado de forma cautelosa com a volta ao poder do Taleban. Ao mesmo tempo em que o governo russo enviou sinais conciliadores ao grupo isâmico, deslocou tropas para a fronteira do Tajiquistão, no que foi divulgado como um exercício militar. De acordo com Lavrov, Moscou defende um "diálogo nacional que permita a formação de um governo representativo" desde antes da mudança de poder no país. 

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Muitos temem que o Taleban seja bem-sucedido em refazer seu governo e apagar duas décadas de esforços para expandir os direitos humanos e conquistas das mulheres.

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A sugestão da liderança do Taleban de que a brutalidade que definiu seu governo  há duas décadas era coisa do passado, não encontra relação com as ações de seus combatentes nas ruas.

Membros do Taleban estão intensificando a busca por pessoas que eles acreditam ter trabalhado com as forças dos EUA e da Otan, inclusive entre as multidões de afegãos no aeroporto de Cabul, e ameaçam matar ou prender seus familiares se não conseguissem encontrá-los, de acordo com um documento confidencial das Nações Unidas.

O desespero de alguns para deixar o país pode ser sentido nos arredores do aeroporto internacional de Cabul, que se tornou a única porta de saída para muitos. Cenas caóticas vêm sendo registradas desde o último domingo - na mais recente delas, crianças são repassadas de mão em mão por uma multidão pessoas. Doze pessoas morreram no aeroporto e imediações, segundo fontes da Otan e do Taleban.

Finanças congeladas

O Taleban tomou o poder falando em combate à corrupção e recuperação econômica, mas para isso dependerá de ajuda internacional. O Banco Mundial permanece em silêncio, mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse na quarta-feira que bloquearia o acesso do Afeganistão a cerca de US$ 460 milhões em reservas de emergência, uma decisão que se seguiu à pressão da administração Biden.

Um acordo alcançado em novembro entre mais de 60 países para enviar ao Afeganistão US$ 12 bilhões nos próximos quatro anos também está em dúvida.

Enquanto lutam contra a crise imediata, o Taleban enfrenta ameaças à estabilidade a longo prazo do Estado.

A assistência é crítica em um país onde o Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas estima que muitos estão passando fome.

"São 14 milhões de pessoas, incluindo 2 milhões de crianças subnutridas", disse a organização.

O Afeganistão, uma nação com uma história brutal, mas também lar de belas maravilhas naturais e uma colcha de culturas, é agora o Emirado Islâmico do Afeganistão.

O Taleban reafirmou seu novo regime em uma mensagem publicada no Twitter na quinta-feira, comemorando o aniversário da independência do domínio britânico há mais de um século. / NYT, AP, REUTERS e AFP

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