REUTERS/Carlos Barria
REUTERS/Carlos Barria

Protestos se intensificam nos EUA após morte de homem negro por policial branco

Manifestantes protestaram em várias cidades do país e reavivam movimento Black Lives Matter

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 11h00

Manifestantes em várias cidades americanas protestaram contra a violência policial, retomando o movimento 'Black Lives Matter' (Vidas negras importam) e, em alguns locais, entraram em confronto com as autoridades após a morte de George Floyd, um afro-americano, por um policial branco em Minneapolis

Outras localidades como Nova York, Columbus, Phoenix e Denver também tiveram protestos. Dezenas de pessoas foram presas em Nova York após um ato na Union Square e o trânsito chegou a ser interrompido em Manhattan. 

Na quinta, uma delegacia de Minneapolis foi invadida e incendiada pelos manifestantes na noite de quinta-feira, 28. Na cidade vizinha de Saint Paul, a polícia também contabilizava os danos. "Sabemos que há muita revolta, muitas feridas. Mas não podemos tolerar que alguns aproveitem a oportunidade para cometer delitos", criticou o chefe de polícia da localidade, Todd Axtel.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou a ida de 500 integrantes da Guarda Nacional por conta do aumento da violência no Estado de Minnesota.

George Floyd morreu depois de suplicar: "Não consigo respirar", enquanto um policial pressionava o joelho em seu pescoço. A morte desencadeou dias de contínuos protestos e saques dispersos de lojas na cidade. O prefeito Jacob Frey, de Minneapolis, disse em uma entrevista na sexta que havia convocado os oficiais para fugir da Terceira Delegacia, dizendo: "O simbolismo de um edifício não pode compensar a importância da vida". 

Frey, um democrata, disse que entendeu a raiva dos moradores da cidade, mas pediu que parem de destruir propriedades e saquear lojas. Frey também deu uma resposta aos tuítes de Trump sobre a possibilidade de atirar em manifestantes. 

"Donald Trump não sabe nada sobre a força de Minneapolis", disse o prefeito. "A fraqueza está se recusando a assumir a responsabilidade por suas próprias ações. A fraqueza está apontando o dedo para outra pessoa durante um período de crise". 

O presidente Trump, que anteriormente chamou o vídeo da morte de Floyd de "chocante", disse que os manifestantes eram "brutamontes" no Twitter e que "quando os saques começam, o tiroteio começa", levando a rede de mídia social a anexar um aviso de que violava as regras da empresa sobre "glorificar a violência".

Os protestos ocorrem em meio à pandemia do coronavírus, que impede muitos moradores de se envolverem diretamente por meses, além da ansiedade de uma nação já atormentada por crises econômicas e de saúde. Tera Brown, prima de Floyd, disse: “Quero ver ação. Isso foi claramente um assassinato".

Os quatro policiais envolvidos na detenção de Floyd foram demitidos e as autoridades locais e federais estão investigando o caso. Mas ainda não foram apresentadas acusações, o que aumenta a raiva e frustração. 

Em Denver, um edifício do governo local foi trancado depois que alguém disparou uma arma perto de uma manifestação pacífica, e os protestos em Columbus, Ohio, ficaram caóticos quando multidões subiram os degraus do Capitólio do Estado e quebraram janelas. 

Policiais também usaram spray de pimenta em uma grande multidão de manifestantes no centro da cidade depois que alguns manifestantes jogaram bombas de fumaça e garrafas de água nas filas de policiais. Em Phoenix, centenas de manifestantes marcharam em direção ao Capitólio do Estado com relativa calma, segundo as notícias, antes de confrontos tensos com policiais no final da noite.

Jornalistas presos

Jornalistas da rede de televisão americana CNN foram presos na manhã desta sexta-feira enquanto trabalhavam na cobertura dos protestos. O repórter Omar Jimenez, enviado ao Estado para cobrir os protestos, foi algemado ao vivo. Ele estava próximo a um bloqueio policial em um dos pontos da cidade que foram incendiados por manifestantes.

Enquanto reportava os fatos em uma entrada ao vivo para a televisão, Jimenez recebe voz de prisão e é algemado por um policial. O repórter pergunta o motivo da prisão, mas não é informado.

Disputa com o Twitter 

Twitter limitou a visualização de mais uma publicação de Trump em que ele dizia que os manifestantes em Minneapolis poderiam ser baleados, o que viola as regras da empresa contra "glorificar a violência". A questão foi o mais novo capítulo das crescentes tensões entre a rede social e a Casa Branca.

A rede social impediu que os usuários visualizassem a mensagem de Trump sem antes ler um breve aviso descrevendo a violação da regra. A decisão ocorreu um dia após o presidente assinar uma ordem executiva para regular as redes sociais - medida vista como represália em razão da marcação em outras postagens de Trump.

Repercussão

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu aos Estados Unidos que tomem "medidas sérias" após "uma série de assassinatos de afro-americanos desarmados cometidos pela polícia americana". 

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenou a morte "devido ao uso excessivo da força pela polícia". E, em uma série de postagens no Twitter, citou estatísticas indicando que pessoas de ascendência africana nos Estados Unidos têm três vezes mais chances de serem mortas do que brancos.

Falta de esperança 

O caso recorda o do nova-iorquino Eric Garner, um homem negro que morreu em 2014 em Nova York ao ser asfixiado enquanto era detido por um policial branco. Garner também disse "Não consigo respirar", uma frase que se tornou um grito de guerra do movimento Black Lives Matter. 

Minnesota também foi marcada pela morte em 2016 de um motorista negro, Philando Castile, morto a tiros durante uma blitz diante de sua companheira e uma criança. Os reverendos Jesse Jackson e Al Sharpton, figuras icônicas na luta pelos direitos civis, viajaram a Minneapolis na quinta para prestar homenagem a Floyd. 

A chefe de polícia de Minneapolis, Madaria Arradondo, admitiu que há um "déficit de esperança em nossa cidade". "Sei que este departamento contribuiu para esse déficit de esperança", mas "não permitirei que esse déficit continue crescendo". / The New York Times e AFP 

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