Provas de Powell podem ter esvaziado inspeção da ONU

Munido de fotos de satélite, gravações e informações atribuídas a espiões a serviço dos Estados Unidos no Iraque, o secretário de Estado americano, Colin Powell apresentou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas o que chamou de "provas irrefutáveis e inegáveis" de que o regime de Saddam Hussein vem escondendo deliberadamente dos inspetores da ONU armas de destruição em massa que está proibido de possuir desde o final da Guerra do Golfo, em 1991."O Iraque colocou-se agora diante do perigo das sérias conseqüências previstas pela resolução 1441 do Conselho de Segurança e este órgão enfrenta o perigo da irrelevância se permitir que o Iraque continue a desafiar sua vontade sem responder de forma eficaz e imediata", afirmou Powell, durante uma apresentação na presença de dez ministros das Relações Exteriores dos quinze países do CS.As reações iniciais da França, da China e da Rússia indicaram que a contundente denúncia feita pelo secretário de Estado não diminuiu a resistência a uma solução de força para desarmar o Iraque. Os chanceleres dos três países, que têm poder de veto no Conselho, disseram que as informações oferecidas por Powell devem ser examinadas com cuidado e reforçam o argumento em favor da continuação das inspeções.Mesmo sem ser convincente, a coleção de indícios apresentada pelo secretário de Estado sobre a operação que Bagdá teria desencadeado para enganar os inspetores pode ter o efeito prático de desacreditar as inspeções e abreviar o tempo que levará para o Conselho respaldar a saída mais drástica contemplada na Resolução 1441, aprovada no dia 9 de novembro, por iniciativa dos EUA.Se não convenceu muita gente fora dos EUA, os argumentos de Powell parecem ter reforçado o apoio interno à estratégia de Bush no Iraque. O senador democrata Joseph Biden, que tem criticado a pressa da Casa Branca em ir à guerra com Saddam, afirmou, ao sair de um café da manhã com Bush, que as informações que ouviu seriam suficientes para convencer um júri popular nos EUA sobre a violação, pelo regime iraquiano, da Resolução 1441.Em sua metódica exposição, na qual soou como um promotor indignado que apresenta provas contra um réu, o chefe da diplomacia americana acusou a ditadura de Bagdá de estar empenhada num vasto esforço de remoção e dispersão de equipamentos e materiais suspeitos e de intimidação dos cientistas iraquianos que trabalharam no desenvolvimento dos programas de armas químicas, biológicas e nucleares de seu país nos últimos 20 anos.Tendo o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), George Tenet, na primeira fileira do grupo de assessores que o acompanhava, Powell citou informações obtidas por espiões americanos no Iraque, segundo as quais, no final do ano passado, Saddam destruiu e aterrou o complexo químico de Al Musayyib, depois de ter deslocado seus equipamentos e materiais precursores para outro lugar. Ele disse também que o Iraque está desenvolvendo mísseis de mil quilômetros de alcance, em violação à ordem da ONU que limita Bagdá aos foguetes de 150 quilômetros.O secretário de Estado tocou duas gravações do que disse ser conversas interceptadas entre militares iraquianos envolvidos em operações de mover os materiais que o Iraque está proibido de possuir pela ONU. Ele exibiu também algumas fotos de satélites do que descreveu como sendo 15 depósitos reforçados de armas, quatro dos quais conteriam laboratórios de armas biológicas.Os dados mais concretos apresentados por Powell, e sobre o quais Bagdá de fato deve explicações, não são novos. Eles se referem às grandes quantidades de agentes para produção de armas químicas e biológicas que o regime admitiu possuir na primeira fase das inspeções de armas, que durou até 1998. O chefe dos inspetores, Hans Blix, informou em seu último relatório ao Conselho que, até agora, o Iraque não explicou o que fez como esses materiais.

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