Handout / Jujuy Health Ministry / AFP
Handout / Jujuy Health Ministry / AFP

Província argentina tem aumento de casos de covid-19 após policiais comprarem coca na Bolívia

Jujuy, que fica na região de fronteira tinha apenas seis casos confirmados da doença até o dia 10 de junho; em agosto o número chegou a 2.347

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2020 | 03h00

JUJUY, ARGENTINA - Após quase 100 dias livre da covid-19, a província argentina de Jujuy, na fronteira com a Bolívia, sofre um aumento exponencial do número de casos em poucos dias, afetando políticos. Agora, à beira do colapso, a província é um dos focos da doença mais preocupantes da Argentina.

"A situação é crítica. Temos 93% dos leitos das unidades de terapia intensiva ocupados com gente do interior da província. Em duas ou três semanas, San Salvador (capital da província) estará no limite. Estamos nos preparando para um colapso", declarou à AFP Sergio Barrera Ruiz, médico do hospital Wecensalao Gallardo de Palpalá e dirigente da Associação Médica da Argentina. 

Na quinta-feira 20, Jujuy reportou 264 novos contágios e seis mortes pela covid-19, somando um total de 5.624 casos e 155 mortos, segundo o ministério da Saúde. A província, uma das mais pobres do país, estava com apenas 6 casos confirmados até o dia 10 de junho. No dia 31 de julho, o número saltou para 97 e, em 1.º de agosto, para 2.347 contágios confirmados. 

Esse distrito de 719 mil habitantes - menos de 2% dos 44 milhões de argentinos - está atrás em quantidade de casos da capital Buenos Aires, que possui 15 milhões de habitantes. 

Até o momento, a Argentina tem 321 mil casos confirmados, sendo 85% na área metropolitana de Buenos Aires, e 6.567 mortos pela covid-19. 

'Relaxamos'

Com uma taxa de 450 casos para cada 100 mil habitantes e 30% dos profissionais da saúde contagiados, Jujuy reporta falta de médicos intensivistas, leitos de UTI, oxigênio e respiradores, além de material de proteção aos profissionais, segundo Barrera Ruiz. 

Em duas ocasiões, a província recebeu reforços de profissionais da saúde e o governo oferece agora aos médicos contratos no valor de 200 mil pesos (US$ 2 mil) por 15 dias de trabalho, mais que o triplo de um salário médio para o cargo.

"Nós relaxamos. Esperamos não ter que escolher em quem colocar oxigênio ou respirador. Mas se a situação continuar como está é o que vai acontecer", advertiu, em entrevista à radio 10, Marcelo Villa, diretor do hospital Paterson da cidade de San Pedro, a segunda maior de Jujuy. Villa também foi contagiado pelo novo coronavírus. 

Entre os contagiados estão o governador Gerardo Morales e o vice Carlos Haquim, da coalizão opositora Juntos por el Cambio, do ex-presidente Mauricio Macri (2015 - 2019), que incentivou manifestações contra as medidas de isolamento para conter a disseminação do vírus.

Organizações sociais, sindicais e políticas de Jujuy pediram ao presidente Alberto Fernández uma "intervenção direta e imediata para assumir a condução do sistema de saúde pública" e responsabilizaram Morales, governador desde 2015, pela situação. 

Coca na Bolívia

"Jujuy estava bem, mas um dia dois jujeños foram comprar folhas de coca na Bolívia e trouxeram junto o vírus", resumiu o presidente Fernández, ao anunciar na semana passada uma nova prorrogação do isolamento social que está em vigor desde o dia 20 de março. 

No dia 3 de julho, o governador Morales se deslocou com uma dezena de funcionários e cerca de 30 policiais até a cidade limítrofe La Quiaca. Durante a viagem, dois policiais cruzaram para a cidade bolivina de Villazón para comprar folhas de coca, que se costuma mascar na região. Foi o "dia fatídico" para a propagação do vírus em Jujuy.

Os dois policiais contaminaram a outros da comitiva, que se deslocaram por outras regiões da província. Morales denunciou os dois policias à Justiça. / AFP

 

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