Província indonésia de Aceh lembra um ano de paz

Após quase três décadas de conflitoarmado separatista, a província indonésia de Aceh lembra nesta terça-feira um ano de paz com grandes desafios pela frente, como a reinserção dos rebeldes e a aplicação da polêmica Lei de Governo de Aceh. O pacto assinado em Helsinque há um ano pelo Governo da Indonésia e pelo Movimento para a libertação de Aceh (GAM, Gerakan Aceh Merdeka) melhorou a situação desse território situado no norte da ilha de Sumatra. A cerimônia oficial aconteceu na praia de Ulee Lhee, a zona zero do tsunami que matou 226.408 pessoas em mais de dez países, a maior parte em Aceh, e que aconteceu em 26 de dezembro de 2004. O vice-presidente indonésio, Jusuf Kalla, e o líder do GAM no exílio, Malik Mahmud, fizeram soar uma sirene no momento exato em que, há um ano, Governo e rebeldes assinaram o memorando de entendimento em Helsinque. Não só as negociações contribuíram para a paz na região, mas também as centenas de milhões de dólares e euros investidos na reconstrução de Aceh após o devastador tsunami. "Há uma liberdade de movimentos nunca antes vista", disse à Efe a diretora de programas em Aceh da Asia Foundation, Sandra Hamid. "A população realmente quer a paz. Está cansada do conflito", acrescentou Hamid. "Os 30 anos de conflito se transformaram em um episódio histórico superado. Esperamos que este acordo em Aceh nos leve a um futurobrilhante", disse Mahmud. Embora sejam poucos os que negam o rápido progresso dos últimos 12 meses, a população de Aceh é crítica ao avaliar o Governo central. Gritando "paz" e "paz para sempre", cerca de 200 mil pessoas, segundo a emissora "Elshinta", concentraram-se hoje na Grande Mesquita de Banda Aceh, a capital da província, e acusaram o Governo de não ter respeitado as promessas feitas há um ano. Entre as reclamações, está a demora no desembolso dos US$ 60 milhões anuais prometidos para ajudar na reinserção dos ex-combatentes e na recuperação das comunidades atingidas. Cerca de 3 mil combatentes saíram das montanhas e voltaram para as aldeias que eles abandonaram há anos ou décadas a fim de lutar pela independência. "Só 2% dos combatentes do GAM foram para as cidades. A maioria foi para os povoados, está sem trabalho e são um peso para suas famílias", explicou a especialista da Asia Foundation. Alguns insurgentes optaram por trabalhar com a agricultura. Outros, no entanto, foram atraídos pelo dinheiro rápido e fácil do corte ilegal de árvores. A paz abriu o acesso a empresas madeireiras e a fábricas de celulose em florestas que, durante a rebelião, eram impenetráveis, como disse recentemente o diretor-executivo da organização ecológica Walhi, Chalid Muhammad. A grande demanda de madeira para a reconstrução de dezenas de milhares de casas destruídas pelo tsunami favoreceu também o aumento do corte ilegal de árvores. Outro desafio pendente é a aplicação da Lei de Governo de Aceh (estatuto autônomo), aprovada pelo Parlamento indonésio em 11 de julho, após meses de tensas deliberações. A legislação foi duramente criticada por ex-representantes do GAM e por várias organizações civis indonésias, que acusaram o Governo de violar o que havia sido acordado no memorando de entendimento. Nur Djalil, negociador do GAM, disse que a população de Aceh poderia retomar as armas se a norma não for mudada. "Vemos que várias coisas na lei não refletem o acordo de paz, mas estamos felizes de ver que, comparado a um ano atrás, o povo de Aceh vive uma vida normal", disse o antigo ministro de Exteriores do GAMno exílio, Zaini Abdullah, ontem em Jacarta. O GAM anunciou que não concorrerá às eleições como partido político, mas não descarta que vários de seus representantes apresentem candidaturas independentes. Apesar dos problemas, quase todos os participante do processo de paz se mostram comprometidos. "Todos querem a paz. Por isso é possível crer que ela está aqui para ficar", disse Hamid.

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