'Proximidade da religião tem a ver com medo da morte'

Jovem dissidente diz que juventude síria é foco de resistência ao regime de Assad e luta por uma democracia pluralista

Entrevista com

Lourival Santana, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2013 | 02h15

BEIRUTE - As negociações em andamento entre a Rússia, a Síria e os Estados Unidos para evitar um ataque americano provaram mais uma vez para os rebeldes que eles precisam enfrentar o regime com seus próprios meios. Foi o que disse ao Estado uma mulher em Damasco, que se identifica apenas como Sham ("Levante", em árabe, o nome da região e tradicionalmente também da Síria), depois de ouvir, a pedido do repórter, 12 pessoas que apoiam a rebelião, dentro da área controlada pelo governo, na capital.

Em entrevista pelo skype, entrecortada por quedas de eletricidade e de conexão, na noite de quarta-feira, Sham afirmou que as forças leais ao governo voltaram a usar armas químicas na periferia de Damasco, em áreas onde praticamente só há combatentes. Ela nega que o Exército Sírio Livre (ESL), de orientação secular, esteja lutando lado a lado com os grupos extremistas islâmicos. "As pessoas têm se aproximado da religião porque estão próximas da morte, não por causa dos extremistas."

O Estado consultou Sami Haddad, do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, a respeito dessas duas afirmações. Ele disse que ouviu falar sobre esse uso de armas químicas posterior ao incidente de Ghouta, dia 21, mas não há evidências que o comprove: "Dúvido muito que um ataque químico seja executado neste momento". Por outro lado, ele disse que há comprovações de ações conjuntas do ESL e de grupos islâmicos. Os relatos de Sham, a seguir, fazem parte das percepções dos rebeldes em Damasco, que ela às vezes chama de "shebab" - "jovens".

Qual a reação dos rebeldes ao plano da Rússia?

Desde o início da revolução na Síria, não vimos o Ocidente colocar-se ao lado do povo sírio, mas apenas mover-se de acordo com os interesses ocidentais em geral. Em primeiro lugar, manter a segurança de Israel. O plano russo tem a clara intenção de apoiar Assad. Ao mesmo tempo, o abandono das armas químicas preserva a segurança e Israel. E a guerra continua na Síria, e enfraquece o Estado sírio, de forma que o Ocidente possa dominá-lo. Essa é a opinião dos jovens aqui, baseada nas perguntas que fiz para eles e também no meu convívio com eles. Os jovens e combatentes civis esperavam que a decisão (americana) de atacar pusesse fim à guerra na Síria, e que o povo pudesse tomar conta do país.

O lugar onde a senhora está é controlada pelo regime ou pelos rebeldes?

Pelo regime. Mas todos os meus amigos e colegas de trabalho querem o fim do regime.

Vocês sabem qual a situação em Ghouta (área atacada com armas químicas)?

A situação lá é muito difícil. Muitas crianças estão com problemas de saúde. Não há remédios nem pão. Por terem decidido ficar contra o regime, eles são bombardeados todos os dias, com aviões. Na segunda-feira, o regime usou armas químicas em Barza e Qaboun (na periferia de Damasco), mas lá praticamente não há mulheres e crianças, apenas combatentes. O tempo todo, 24 horas por dia, 7 dias da semana, há bombardeios aéreos, e também com morteiros e foguetes em Barza, Qaboun e Jobar (também na periferia de Damasco).

Vocês temem que o regime continue usando as armas químicas depois do acordo com a Rússia?

Todos acham que o acordo não está claro ainda. Desde o começo da revolução, os governos da Rússia e dos outros países dizem uma coisa e fazem outra. Por isso, os jovens querem que os próprios sírios derrotem o Exército sírio.

Mas eles acham que podem derrotar Assad sem ajuda estrangeira?

Sim, agora eles acreditam que seja uma tarefa nacional, reunir os esforços da população dentro da Síria para acabar com essa guerra e criar uma alternativa ao regime de Assad.

Mas nas últimas semanas o regime pareceu mais forte, e estava avançando sobre as posições dos insurgentes, não lhe parece?

É verdade. Uns dias o regime avança, noutros dias, os rebeldes. O regime não está mais forte. Ele depende da guerra midiática. Eles avançaram alguns metros na estrada para o aeroporto, e perderam milhares de soldados lutando no front.

O Ocidente teme que os grupos radicais islâmicos dominem a Síria. Isso é possível?

Nós tememos que esses grupos sejam apoiados pelo regime e por outros países, que são aliados do Ocidente. É verdade que os grupos islâmicos controlaram Alepo (no norte) e sua área rural, mas a situação é diferente no resto das províncias.

O fato de os jovens estarem desiludidos com o Ocidente pode atraí-los para os grupos islâmicos como alternativa?

As pessoas têm se aproximado da religião porque estão próximas da morte, não por causa dos extremistas. Vemos que são países árabes estrangeiros que estão estimulando esses grupos. Os revolucionários acreditam que a revolução vai ter êxito só com a derrota dos planos do Ocidente e dos russos ao mesmo tempo.

Mas o Exército Sírio Livre (ESL) está lutando junto com a Frente Al-Nusra e o Ahrar al-Sham, não está?

Não. Há discordância entre o ESL e esses grupos extremistas. A maioria dos jovens apoia o ESL. Os jovens sírios lançaram há alguns meses um apelo em favor do retorno aos objetivos da revolução: liberdade e dignidade. E todos os jovens nas áreas liberadas, fora do controle do regime, apoiam essa iniciativa. O extremismo é produto da tirania, e os jovens estão resistindo contra ambos. Eles lutam para construir uma democracia pluralista.

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