Fernando Llano/AP
Fernando Llano/AP

‘Próximo passo será construção de confiança mútua’

Para chanceler brasileiro não havia razão para receber María Corina, opositora que esteve no Brasil semana passada

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2014 | 01h03

CARACAS - O chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, participou nos últimos dois dias da comissão da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) que obteve aval de governo e oposição para o início de um diálogo na Venezuela. "Pela primeira vez, teremos governo e oposição sentados face a face, com uma agenda ampla para determinar os próximos passos do diálogo", disse ele ao Estado. Para Figueiredo, ainda não há confiança entre as duas partes para um diálogo capaz de acabar com a onda de protesto e de violência.

Qual o grau de confiança da Unasul nas promessas do governo e da oposição de se engajarem em um diálogo?

Há confiança alta do governo e da oposição no papel e na capacidade da Unasul. O próximo passo será a construção da confiança mútua, o que ocorrerá naturalmente com o diálogo.

Depois de Maduro ter anunciado o início do diálogo, acusou a oposição (antes do acerto desta noite). Isso não é contraproducente?

Não posso comentar porque não ouvi a declaração. Mas acho que os passos estão sendo dados. O fato novo é que tanto o governo quanto a oposição se dispuseram a se sentar face a face para discutir seus problemas.

O governador de Miranda, Henrique Capriles, reuniu-se na segunda à noite com os chanceleres da Unasul. Qual pode ser o papel dele no diálogo?

Nossa reunião com os governadores da oposição foi muito produtiva. Estavam presentes, além de Capriles, os governadores de Lara, Henri Falcón, e o de Amazonas, Liborio Guarulla. Os três se mostraram dispostos a fazer o que a Mesa da Unidade Democrática (MUD) decidir. Soubemos que a MUD se encontrou com eles na noite de segunda. Portanto, a decisão da MUD de ir à reunião preparatória com o presidente Maduro levou em conta a posição dos três governadores.

A MUD pediu aos chanceleres que se encontrassem com Leopoldo López, coordenador do partido Vontade Popular, na prisão militar onde está detido?

Não. Até porque não haveria tempo para isso.

Leopoldo López é um líder importante. Foi quem convocou a manifestação de 12 de fevereiro. Por que os chanceleres não solicitaram esse encontro?

Nós conversamos com a MUD e achamos que, ao fazer isso, falamos com todas as forças dessa coalizão. Não era nossa intenção conversar com pessoas em especial, mas com todas as forças políticas.

Na semana passada, esteve em Brasília a deputada cassada María Corina Machado. Por que o Itamaraty não a recebeu?

Em primeiro lugar, porque não foi pedido. Não vejo razão para recebê-la. Aqui em Caracas, caso ela tivesse vindo da MUD, teria sido recebida.

A MUD excluiu María Corina Machado?

Não estou dizendo isso. Estou dizendo que ela teria sido recebida se a coalizão política dela a tivesse trazido.

Como a Unasul e o governo brasileiro se posicionam em relação ao agravamento da repressão?

A Unasul não tem como se posicionar sobre essa questão. Estamos aqui justamente para criar um clima que evite isso. Até o momento, a Unasul tem tido muito êxito porque, pela primeira vez, teremos o governo e a oposição da Venezuela sentados face a face, com uma agenda ampla para determinar os próximos passos do diálogo. Esperamos que toda a forma de violência, venha de onde vier, acabe.

A intermediação pelo Vaticano seria a melhor escolha?

Todas as forças políticas têm manifestado interesse numa participação do Vaticano como terceira parte de boa-fé. Talvez não apenas do Vaticano. Mas seria importante o Vaticano estar presente.

Para a Unasul estaria bem ser substituída pelo Vaticano?

A Unasul está aqui para ajudar. Os próximos passos têm de ser dados pelos venezuelanos. Se eles escolherem os chanceleres da Unasul para acompanhar as conversas, ótimo. Se escolherem outras testemunhas do diálogo, como o Vaticano, ótimo também.

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