Próximo presidente tende a ser civil, diz especialista

Jaime Suchlicki aponta o vice-presidente Carlos Lage como principal candidato

Leda Balbino, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Afastado do poder há um ano e meio, o líder cubano, Fidel Castro, deve conquistar hoje uma das 614 cadeiras da Assembléia Nacional do Poder Popular ao participar das eleições legislativas do país. A vitória, algo simples diante de seu histórico de quase 49 anos como comandante da ilha, será, no entanto, crucial para determinar seu futuro político.Fidel precisa da confirmação como deputado para habilitar-se para o Conselho de Estado - o principal órgão Executivo cubano, com 31 membros. Como o escolhido para chefiar o Conselho automaticamente se torna presidente do país, o líder cubano terá de tomar uma decisão difícil até 5 de março - quando o conselho anuncia o novo governo. Ou retoma o cargo suspendendo a presidência interina do irmão, que assumiu após ele se submeter a uma cirurgia no intestino, em julho de 2006, ou adota um novo papel para tentar preservar a Revolução Cubana (1959).As apostas favoráveis à última opção ganharam força na semana passada, depois de Fidel reconhecer num artigo que não tem saúde suficiente para discursar em público ou falar diretamente com os eleitores da cidade de Santiago de Cuba por onde saiu como candidato às eleições legislativas. No ensaio, Fidel revela até sua frustração com suas limitações físicas: ''''Faço o que posso: escrevo. Para mim, é uma nova experiência. Escrever não é o mesmo que discursar.''''Wayne Smith, analista sênior do Programa de Cuba do Centro de Política Internacional, em Washington, lembra que Fidel já indicou em outras ocasiões que poderia se aposentar. ''''Em uma carta divulgada em dezembro, ele afirmou que seu dever não era aferrar-se ao poder, mas sim abrir caminho para pessoas mais jovens'''', disse Smith por e-mail ao Estado.Ex-chefe da Seção de Interesses dos EUA em Havana (1979-1982), o analista relata que há expectativa de que Raúl seja eleito oficialmente presidente do país para que Fidel ocupe uma função de conselheiro. Na carta divulgada em dezembro, Fidel parece endossar essa análise com a afirmação: ''''Meu dever é oferecer experiências e idéias cujo modesto valor procede da época excepcional que me coube viver.''''Avaliação similar faz Philip Peters, conselheiro do grupo de trabalho sobre Cuba do Congresso americano e vice-presidente do Instituto Lexington, na Virgínia. ''''É muito difícil imaginá-lo como chefe de Estado se não aparece em público há 18 meses'''', afirmou.Peters vai ainda mais longe. Ele afirma que há ainda a possibilidade de que Raúl, que também é chefe das Forças Armadas cubanas, igualmente se afaste do Executivo para atuar como conselheiro. ''''Seria uma mostra de força se transferissem o poder da geração que lutou na revolução para aquela que cresceu nela'''', afirma.A afirmação deve-se muito à fama de Raúl. Chamado de ''''Fidel pragmático'''', ele é normalmente descrito como favorável a reformas econômicas, mas não muito afeito a atividades públicas e diplomáticas - preferindo atuar nos bastidores.Jaime Suchlicki, diretor do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade de Miami, afirma que é muito provável que o próximo presidente seja civil. O nome que aponta é o de Carlos Lage, vice-presidente e secretário-executivo do Conselho de Ministros. ''''Ele cresceu no sistema e pode fazer mudanças na economia, como Raúl quer - qualquer coisa que Raúl mandar fazer, ele fará'''', disse, por telefone, ao Estado.Pediatra de formação, Lage, de 57 anos, tornou-se conselheiro de Fidel no início dos anos 90, quando o país parou de receber subsídios anuais de até US$ 6 bilhões com o fim da União Soviética . Nessa época, conhecida como ''''Período Especial'''', ele ganhou reputação após implementar com Raúl reformas que permitiram pequenos negócios e limitada posse de terras para aumentar a produção de alimentos .Em 2005, foi ele quem negociou com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, pagar com o envio de médicos à Venezuela os 92 mil barris diários de petróleo que recebe de Caracas. ''''Foram US$ 4 bilhões em produtos só no último ano'''', afirma Suchlicki . ''''Atualmente a Venezuela cumpre no país o mesmo papel que os soviéticos tiveram nos anos 70 e 80.''''Mark Falcoff, especialista em América Latina do American Enterprise Institute, em Washington, considera Lage e o presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón, políticos ideais para a normalização das relações com os EUA, que impuseram um embargo econômico, comercial e financeiro contra a ilha em 1962. ''''Esse diálogo seria facilitado pelo fato de os dois serem vistos como membros da burocracia do país, e não como ícones da Revolução Cubana'''', afirmou.Mas Falcoff duvida que a sucessão ocorra no curto prazo. Ele acredita que, depois do atual processo eleitoral cubano, a disposição de poder dos últimos 18 meses continuará a mesma. ''''Fidel já poderia ter-se aposentado desde que ficou doente. A única maneira de ele desistir do poder é morrendo'''', disse. Smith discorda, afirmando que se tornou mais conveniente para o regime anunciar a mudança de forma oficial quando o Conselho de Estado escolher o novo presidente, em 5 de março. ''''Assim, o anúncio fará parte do processo normal da política interna do país.''''

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