REUTERS/Desmond Boylan
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Próximos passos da ilha são incógnita

Morte de Fidel não significa, necessariamente, que Raúl vá acelerar o ritmo de suas medidas para reformar Cuba econômica e socialmente

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 17h50

CIDADE DO MÉXICO - Durante meio século, enquanto Fidel Castro transformava Cuba em um Estado comunista e enfrentava os EUA, seu irmão Raúl trabalhava à sombra do autoritário líder. Com a morte de Fidel, Raúl, que assumiu os poderes presidenciais em 2006 e tomou posse oficialmente do cargo em 2008, transformou a ilha em um país irreconhecível em muitos aspectos, mas surpreendentemente, o mesmo.

Raúl descartou alguns dos preceitos considerados sagrados por Fidel, eliminando o cadafalso comunista construído pelo irmão. E numa espantosa decisão que deixou o mundo surpreso, negociou um impasse diplomático, mantido ferozmente por Fidel durante 50 anos, com os Estados Unidos.

Hoje, essa é a Cuba de Raúl, uma ilha onde os jovens da geração do milênio conversam com seus primos pelo Skype, proprietários de restaurantes saem em busca de “zuchini” nas hortas particulares e americanos lotam as ruas da velha Havana.

Acima de tudo isso, Raúl mantêm o controle firme do poder, assegurado por líderes militares em quem confia e uma nova trajetória econômica por ele estabelecida, em que a empresa privada assume um papel essencial, mas não ameaçador.

A morte de Fidel, no entanto, ocorre num período de grande incerteza. Seu benfeitor regional, a Venezuela, desmorona economicamente. Muitos cubanos buscam entrar nos Estados Unidos enquanto os privilégios especiais para imigrantes da ilha permanecem em vigor.

Agora, depois de inúmeras mudanças na política do presidente Barack Obama para aproximar mais os dois países, surge uma nova incógnita: a eleição de Donald Trump, que já ameaçou acabar com a distensão entre as duas nações.

Dúvida. Uma pergunta persistente, agora, pode ser respondida: o peso do legado de Fidel restringiu Raúl, impedindo-o de desmantelar substancialmente o caro sistema que o irmão construiu, ou as medidas lentas adotadas no sentido de uma mudança refletem o próprio desejo de Raúl de dar nova vida a uma economia debilitada como a de Cuba?

Para Roberto Veiga, diretor da organização Cuba Posible, com sede em Havana, que promove o diálogo político, a morte de Fidel “afetará profundamente a população”, mas não mudará a trajetória do país.

“Haverá um impacto emocional, um impacto político. Mas não sobre a maneira como o país é governado”, afirmou. “Faz muito tempo que Fidel deixou a presidência. Raúl está governando há anos. Tem uma equipe. Existe estabilidade”.

Raúl tem mostrado vontade de mudar o curso das coisas. Brian Latell, ex-analista da CIA que acompanhou a atuação da liderança de Cuba durante décadas, disse que o relacionamento dos irmãos Castro era um espetáculo ensaiado. Fidel fazia o diretor inflamado, visionário, enquanto Raúl era o produtor que agia no bastidor, garantindo que o microfone funcionasse, os atores recebessem salário e todos seguissem o roteiro. Mas, com a retirada de Fidel, Raúl sentiu-se cada vez mais à vontade para mudar o rumo da produção, embora mantendo seu espírito.

Raúl há muito se definiu como continuador da revolução, prometendo construir “um socialismo próspero e sustentável”. Foi ele quem se queixou da burocracia estatal e da corrupção, afirmando que o funcionalismo público tinha de ser enxuto. “Precisamos acabar de uma vez com essa ideia de que Cuba é o único país do mundo onde alguém consegue viver sem trabalhar”, disse ele na Assembleia Nacional em 2010.

Alguns observadores especulam se a reaproximação com os EUA teria sido possível se Fidel ainda estivesse no poder e com saúde. Para outros, porém, as mudanças tiveram a aprovação de Fidel.

Embora Raúl continue firmemente no controle, muitos se perguntam que tipo de Cuba virá após Fidel. Raúl, de 85 anos, prometeu deixar o poder em 2018. Seu vice-presidente, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez, de 56 anos, é um dos citados para a presidência. Mas, nos opacos e protegidos círculos da política cubana, isso é impossível de se saber com certeza. / THE NEW YORK TIMES

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