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Psicólogos que elaboraram torturas da CIA vão a julgamento nos EUA

O governo conseguiu impedir iniciativas anteriores com o argumento de que é necessário proteger informações delicadas de inteligência

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 17h29

WASHINGTON - Dois psicólogos que ajudaram a elaborar o programa de interrogatórios dos detidos da CIA (Agência de Inteligência americana) depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 irão a julgamento por incentivar o uso de métodos de tortura como o afogamento simulado e a colocação de prisioneiros em posições estressantes.

Juízes federais do Estado de Washington ordenaram a realização de um julgamento com júri, em resposta a um processo de três ex-réus - entre os quais um morreu em uma prisão da CIA depois de duros interrogatórios - e rejeitando os esforços para obrigar a arquivar o caso e evitar uma audiência completa.

O processo, apresentado pela União Americana de Liberdades Civis (ACLU), será o primeiro a envolver o programa de torturas em um julgamento, que será realizado em setembro.

O governo conseguiu impedir iniciativas anteriores com o argumento de que é necessário proteger informações delicadas de inteligência.

O caso envolve os psicólogos James Mitchell e Bruce Jessen, que foram recrutados pela CIA em 2002 para ajudar a preparar e realizar os interrogatórios de suspeitos no âmbito da guerra contra o terrorismo capturados no Afeganistão e em outros lugares.

Os dois receberam US$ 80 milhões por seu trabalho, que incluía ajudar a interrogar Khalid Sheikh Mohammed, o cérebro dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, atribuídos ao grupo extremista Al-Qaeda, e Abu Zubaydah, outro alto membro da organização.

A ACLU alega que Jessen e Mitchell foram responsáveis, e se beneficiaram economicamente, da tortura ilegal do tanzaniano Suleiman Abdullah Salim, do líbio Mohamed Ahmed Ben Soud e do afegão Gul Rahman.

Os dois primeiros foram libertados após anos de prisão, e Rahman morreu de hipotermia em uma cela de uma prisão da CIA em novembro de 2002, depois do que a ACLU denunciou como duas semanas de "tortura brutal".

"Este é um dia histórico para nossos clientes e todos os que buscam a prestação de contas pela tortura", indicou o advogado da ACLU Dror Ladin em um comunicado.

"A decisão da corte implica que, pela primeira vez, as pessoas responsáveis pelo brutal e ilegal programa de torturas da CIA enfrentarão uma responsabilidade legal pelo que fizeram. Nossos clientes esperaram muito tempo por justiça", afirmou Ladin.

O tribunal descartou os argumentos da defesa dos psicólogos de que eles não eram responsáveis por todas as atividades nas sessões da CIA e não tinham nada a ver com os interrogatórios de dois dos homens envolvidos.

Os acusados também alegaram, entre outras coisas, que não eram responsáveis por tomar as decisões de utilizar as chamadas "técnicas de interrogatório melhoradas" nos casos específicos desses três detidos, senão que apenas proporcionaram à CIA uma lista de métodos a serem escolhidos. / AFP 

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