South Korea Defense Ministry via AP
South Korea Defense Ministry via AP

Punição proposta por Trump traria prejuízos aos EUA

Ameaça foi direcionada principalmente à China, um dos principais parceiros comerciais do país e credor do governo americano 

O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 05h00

WASHINGTON - A ameaça feita pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de retaliar a Coreia do Norte rompendo as relações comerciais com nações que mantêm negócios com Pyongyang exigiria disposição para provocar um terremoto no comércio exterior americano. Punir esses países – entre eles, China, México e Arábia Saudita –, causaria um prejuízo bilionário na própria balança comercial americana. 

Apesar de anos de sanções econômicas e condenação internacional, a Coreia do Norte conduz, ainda que de maneira modesta, um fluxo comercial com mais de 80 países, entre eles, o Brasil. O principal deles, de longe, é a China, responsável por quase todo o comércio exterior da Coreia do Norte. A ajuda de Pequim ao país passa por combustível, comida, maquinário, entre outros. 

De acordo com um estudo do Observatory of Economic Complexity, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a China, em 2015, foi o destino de 83% das exportações norte-coreanas e responsável por 85% das importações do país. Os dois países compartilham 1.420 quilômetros de fronteira. 

Ao mesmo tempo, China e EUA são os dois maiores parceiros comercias do mundo e um rompimento entre eles teria implicações monumentais para o comércio internacional e a economia global.

Apenas Canadá e México importam mais dos EUA do que a China, que é responsável por 9,3% das exportações americanas. Das importações dos EUA, 21% são originárias da China. Os negócios entre eles envolvem uma grande variedade de itens, como peças automotivas, suco de maçã e iPhones. 

O tuíte postado por Trump na noite de domingo foi visto como um alerta específico para a China, também principal aliada da Coreia do Norte nos fóruns internacionais. Os EUA elevaram a pressão após o governo de Pyongyang anunciar seu mais potente teste nuclear, realizado no domingo. 

Ontem, a China reagiu à pressão e criticou Trump. “É definitivamente inaceitável para nós que, por um lado, estejamos trabalhando duro para resolver pacificamente essa questão e, por outro, nossos interesses sejam objeto de sanções e de ameaças”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang. “Isso é injusto.”

Bravata. Para especialistas, os americanos têm, na verdade, opções limitadas. Segundo eles, romper o comércio entre a China e os EUA é virtualmente impossível e Trump fez uma “ameaça vazia”. “Mesmo admitindo que o comércio entre esses países seja interrompido, isso causaria enorme prejuízo à economia americana”, afirmou o especialista do Council on Foreign Relations, Edward Alden, à rede CNN. 

Além disso, na opinião de outro analista, ao fazer uma ameaça praticamente impossível de ser cumprida, Trump enfraqueceu a credibilidade de seu governo, não apenas com relação à Coreia do Norte, mas a outros temas delicados. “Primeira regra da diplomacia é nunca fazer uma ameaça que você não possa cumprir”, tuitou o diretor de Américas do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, Mark Fitzpatrick. 

Além das implicações comerciais, Washington depende do dinheiro de Pequim, uma vez que a China é o maior credor do governo americano. Na avaliação dos especialistas, o tuíte do presidente americano mostrou quão limitadas são suas opções, uma vez que mesmo com tantas sanções e pressão econômica internacional, a Coreia do Norte não deixou de seguir com seu programa nuclear. 

Uma alternativa que poderia ser considerada, segundo eles, seria mirar apenas as companhias chinesas que fazem negócios com a Coreia do Norte. Mas eles ponderam que a medida poderia se tornar ineficaz contra o governo chinês, que se preocupa com o fato de que limites comerciais poderiam piorar a situação em Pyongyang e tornar o país vizinho ainda mais imprevisível. / NYT e AP 

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