AP
AP

Putin, a vaia e as eleições de domingo

Verdadeiro escrutínio ocorrerá apenas na votação presidencial de março

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2011 | 03h04

PARIS - No domingo serão realizadas eleições legislativas na Rússia. Mas o verdadeiro escrutínio ocorrerá apenas na votação presidencial de março, com a vitória assegurada de Vladimir Putin.

Na realidade, o apagado presidente Dmitri Medvedev só ocupou o cargo por vontade de Putin, que, tendo exercido dois mandatos presidenciais desde 2000, não tinha direito a um terceiro - e assim elegeu seu "protegido" Medvedev. E Putin tornou-se um premiê à espera de poder se candidatar de novo à presidência.

Portanto, as eleições de domingo podem ser vistas como simples formalidade, uma vez que Putin continua dando as cartas. Contudo, a votação desperta algum interesse. Vai mostrar se Putin continua mesmo todo-poderoso. Sua eleição em março está assegurada, mas há dúvidas quanto à extensão do seu sucesso.

Há alguns dias, ocorreu uma luta de artes marciais no Olympiyskiy Stadium, em Moscou, entre o russo Fedor Emelinako e o americano Mansion. O russo venceu e Putin, que assistia ao evento, subiu ao ringue para felicitá-lo. Uma cena sem precedentes ocorreu: Putin, "o intocável", foi alvo de vaias. Desconcertado, vacilou, recompôs-se e pronunciou um discurso em homenagem ao campeão. Nas 24 horas seguintes, a cena foi vista 530 mil vezes online.

O Kremlin procurou se defender, explicando que as vaias não foram para Putin, mas para o americano que o russo reduziu a frangalhos. Mentira. As vaias foram para Putin. Num dado momento, ouviu-se claramente um espectador gritar "Caia fora!".

Havia 20 mil pessoas assistindo. Homens. Apaixonados por esportes violentos e cruéis, ou seja, a clientela desse Putin que se empenha ao máximo para encarnar a figura do "machão": o homem viril, adepto dos esportes de impacto, que passa o tempo se fazendo fotografar com um fuzil, depois de abater um tigre.

É isso que dá sentido às vaias no Olympiyskiy Stadium, que não vieram de jovens meninas querendo humilhar o "machão". Vieram de outros machões. Eis porque os jornais estrangeiros intitularam a reportagem a respeito como o L'Express: "Putin vaiado, o fim de uma época". Belo título, mas inexato. As eleições legislativas mostrarão que Putin não acabou, retornará à presidência e seu partido, o Rússia Unida, ainda é o primeiro do país.

Só que Putin, em vez de ser o "deus" que arrancou a Rússia do caos tornou-se "humano", um político como qualquer outro, mesmo sendo mais popular do que seus rivais.

Segundo a última pesquisa, 67% dos russos têm uma opinião positiva sobre ele, avaliação que faria qualquer líder ocidental salivar. Mas há alguns anos Putin tinha aprovação de 90%. A queda é severa. Mesmo não sendo mortífera, indica que a "magia Putin" não funciona mais.

Que partido se beneficiará com esse recuo? Segundo as pesquisas, seriam os nacionalistas do entusiasmado Vladimir Jirinovski e os comunistas de Gennadi Zyuganov. Apesar disso, a Rússia Unida vencerá no domingo e, em março, Putin se tornará presidente. E teremos a enorme satisfação de admirar de novo o herdeiro dos czares abatendo ursos na Sibéria. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
PutineleiçõesRússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.