Putin acelera cessão de nacionalidade a quem fala russo em países da ex-URSS

Lei aprovada pela Rússia amplia desconfiança sobre objetivos do Kremlin para a região - a proteção de russos étnicos foi o argumento usado para anexar a Crimeia, em março; Washington ameaça com mais sanções, enquanto Moscou culpa Kiev por confrontos

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S.Paulo,

22 de abril de 2014 | 00h29

PARIS - O presidente russo, Vladimir Putin, assinou nesta segunda-feira, 21, uma lei que acelera o processo de concessão de nacionalidade para russos étnicos que a solicitarem em países vizinhos. A condição imposta é que os candidatos falem russo e vivam em territórios que faziam parte da União Soviética (URSS).

 

Outra lei assinada pelo líder russo favorece minorias que vivem na Crimeia, como tártaros, armênios, gregos, búlgaros e germânicos, perseguidos pela URSS durante o regime de Stalin, acusados de colaboração com o nazismo. Membros dessas etnias serão contemplados, segundo a promessa do Kremlin, por programas culturais para valorizar suas línguas e costumes. Dos 2,2 milhões de habitantes da Crimeia, 300 mil são tártaros e seus líderes comunitários eram contra a anexação da península pela Rússia.

 

Putin também confirmou o pacote econômico que transformará a Crimeia - território da Ucrânia anexado em março, após um referendo não reconhecido pelas Nações Unidas - em uma zona de desenvolvimento especial, uma espécie de vitrine do que a Rússia pode oferecer à região. "O decreto também prevê medidas de melhoria da situação econômica e social de alguns territórios que nos últimos anos, até nas últimas décadas, estavam praticamente abandonados", disse o presidente russo.

 

Na disputa diplomática estabelecida entre Moscou e Washington sobre a região, os americanos pressionaram o governo de Putin a adotar "medidas concretas" para frear a ação de milícias separatistas que tomaram prédios públicos e controlam cidades do leste da Ucrânia. A iniciativa foi tomada pelo secretário de Estado americano, John Kerry, no mesmo dia em que o vice-presidente Joe Biden chegou a Kiev para uma visita em que ressaltará o apoio de Washington ao presidente interino, Oleksander Turchinov, e ao primeiro-ministro, Arseni Yatseniuk.

 

A viagem ocorre quatro dias após um acordo firmado em Genebra com a participação de Rússia, EUA, União Europeia e autoridades da Ucrânia. Em uma conversa por telefone, Kerry conversou com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e pediu a Moscou o cumprimento de sua parte no acordo, que prevê o fim das hostilidades, o desarmamento de milícias e a saída de prédios públicos ocupados em cidades como Donetsk, na fronteira com a Rússia. Em troca, Kiev promete anistiar os rebeldes.

 

Mais cedo, Lavrov reiterou acusações de que o governo provisório de Kiev violava os termos do entendimento. O chanceler acusou grupos armados anti-Rússia de atacar no domingo um posto de controle mantido por militantes separatistas em Slaviansk, também no leste do país. Segundo os separatistas, o confronto deixou cinco mortos - dois deles nacionalistas pró-Kiev.

 

"Medidas estão sendo tomadas antes de tudo por aqueles que tomaram o poder em Kiev, que não apenas não respeitam, mas infringem grosseiramente o acordo de Genebra", afirmou Lavrov.

 

Lavrov reclamou que as autoridades provisórias da Ucrânia não atuaram para desmobilizar os acampamentos em Kiev, que estão na origem do movimento Euromaidan. "Essas autoridades não fazem nada, não levantam um dedo para atacar as causas da profunda crise interior na Ucrânia", disse.

 

Ele comentou a pressão dos EUA, que estudam novas sanções caso a Rússia estimule o movimento separatista na região, "Antes de fixar ultimatos, de reclamar que honremos as demandas em um prazo de dois ou três dias sob a ameaça de sanções, nós apelamos aos nossos parceiros americanos a assumirem a responsabilidade por aqueles que eles conduziram ao poder". / COM AP e REUTERS

 
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