Alexander NEMENOV / AFP
Alexander NEMENOV / AFP

Putin acusa EUA de elevarem risco de guerra nuclear

Presidente russo também apoiou retirada das tropas estadunidenses da Síria, mas expressou 'dúvidas'

Redação, O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2018 | 13h58

MOSCOU – O presidente da Rússia, Vladimir Putin, acusou os Estados Unidos de elevarem o risco de uma guerra nuclear ao ameaçarem se retirar de um tratado crucial de controle de armas e se recusarem a conversar sobre outro pacto que expira em breve.

Os EUA ameaçaram se desfiliar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), de 1987, que proíbe Moscou e Washington de instalarem mísseis terrestres de alcance curto e médio na Europa.

Nesta quinta-feira, 20, Putin disse que a ação, se acontecer, terá consequências imprevisíveis. “Estamos testemunhando essencialmente o rompimento da ordem internacional de controle de armas e (o início de) uma corrida armamentista”, disse o líder russo em sua coletiva de imprensa anual com centenas de repórteres, evento usado pelo russo para polir suas credenciais de líder e enviar recados a aliados e inimigos. 

“É muito difícil imaginar como a situação se desenvolverá (se os EUA deixarem o INF). Se estes mísseis aparecerem na Europa o que deveríamos fazer? É claro que teremos que garantir nossa própria segurança”, acrescentou.

O novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas, outro pacto EUA-Rússia que limita o número de ogivas nucleares estratégicas instaladas que cada lado pode ter, vence em 2021. Putin disse estar preocupado por Washington não parecer interessada em debater seu futuro.

“Nenhuma conversa sobre prorrogar isso já está acontecendo. Será que os americanos não estão interessados, será que não precisam deles? Ok, sobreviveremos e garantiremos nossa própria segurança, o que sabemos fazer. Mas no geral isso é muito ruim para a humanidade porque nos deixa mais próximos de um limiar perigoso”.

O líder russo, que disse que Moscou desenvolveu armas nucleares que acredita lhe darem uma vantagem sobre outros países, alertou que a ameaça de um conflito nuclear está aumentando em resultado das medidas dos EUA. Putin também citou a tendência perigosa de reduzir o limiar para o uso de armas nucleares e a ideia de usar mísseis balísticos com ogivas convencionais.

“Se, Deus nos livre, algo assim acontecesse, levaria ao fim de toda a civilização e talvez também do planeta”, afirmou Putin. “Espero que a humanidade tenha bom senso e noção de autopreservação suficientes para não levar as coisas a tais extremos”.

Putin apoia retirada de tropas dos EUA da Síria, mas expressa dúvidas

Apesar do alerta, Putin aprovou a retirada das tropas estadunidenses da Síria, mas lembrou que a mesma coisa vem sendo anunciada no Afeganistão há 17 anos e estas permanecem nesse país.

"Se os EUA decidiram retirar suas tropas da Síria, então é o passo correto. A presença de tropas americanas é necessária? Não, eu acredito que não", disse.

Putin ressaltou que a presença de tropas americanas no país árabe carece de sentido quando tudo indica que a Síria se encontra a ponto de começar um processo de regulação política após a guerra que começou em março de 2011.

No entanto, destacou que a Rússia não tem ainda "indícios" de que a retirada americana vá ocorrer em breve e ressaltou que a presença do exército americano no país árabe, que tachou de "ilegítima", não foi sancionada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU e também não a convite do regime de Bashar al Assad, aliado de Moscou.

"Quanto à retirada das tropas americanas, eu não sei o que é isso. Os EUA estão presentes, digamos, no Afeganistão. Por quanto tempo? 17 anos. E quase todo ano dizem que tirarão suas tropas. Por enquanto, seguem ali", comentou.

A Rússia advogou sempre pela retirada das tropas dos EUA, às quais acusa de ajudar os grupos jihadistas combatidos pelo regime de Assad e de colocar impedimentos à regulação do conflito. Putin concordou com o presidente dos EUA, Donald Trump, no fato de que o grupo jihadista Estado Islâmico sofreu "grandes revezes" na Síria, mas alertou do perigo de que os grupos radicais que combateram na Síria se transfiram a outros países da região, como o Afeganistão.

"Esse é um grande perigo para todos nós, para a Rússia e para os EUA, para a Europa e para os países asiáticos e centro-asiáticos", afirmou o governante russo, que qualificou como "construtivo" o diálogo militar com Washington para a luta contra o terrorismo em território sírio, apesar das "contradições" existentes.

Por fim, destacou que a Rússia já pactuou a lista do comitê constitucional sírio com Assad, mas que o emissário da ONU, Staffan de Mistura, adotou uma postura de espera, o que poderia desacelerar o processo. / EFE e Reuters

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