Putin acusa EUA de 'prenderem' na Rússia delator de rede de espionagem

Crise diplomática. Presidente russo critica pressão da Casa Branca sobre nações que poderiam conceder asilo político ao ex-agente da CIA, compara o americano com um 'presente indesejado' e afirma que há chance de um acordo para que ele fique no país

MOSCOU , O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h05

O presidente russo, Vladimir Putin, disse ontem que os EUA conseguiram encurralar Edward Snowden na Rússia ao pressionar países que poderiam lhe conceder asilo a não recebê-lo. Falando para estudantes, Putin afirmou que está próximo de um acordo para que o ex-agente americano fique no país e reiterou que não quer que ele prejudique os interesses americanos - o que causou gargalhadas da plateia.

Snowden, responsável pelo vazamento do esquema de monitoramento de e-mails e telefonemas feito pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), viajou de Hong Kong para Moscou no dia 23 de junho, na esperança de embarcar para algum país que lhe concedesse asilo político e evitasse um processo judicial nos EUA, onde foi acusado de ameaçar a segurança nacional.

Desde então, ele permanecesse na área de trânsito do aeroporto da capital russa. Sem passaporte válido e sem visto para entrar na Rússia, Snowden não pôde passar pela imigração e permanece em um limbo jurídico. Autoridades russas disseram ontem que ainda não receberam um pedido oficial de asilo - que teria sido feito na sexta-feira -, mas Putin não descarta aceitá-lo como asilado político.

Ontem, Putin disse que o ex-agente da CIA era um presente indesejado. "Ele chegou em nosso território sem ser convidado", disse. "Ele não veio para cá. Ele estava em trânsito para outros países. Somente quando ele já estava voando é que nossos parceiros americanos o impediram de seguir viagem. Eles aterrorizaram todos os outros países e, desta forma, o confinaram em nosso território. Um belo presente de Natal."

Putin voltou a repetir que, se Snowden quiser asilo na Rússia, deve desistir de qualquer atividade política - o que significaria interromper o vazamento de informações secretas dos EUA. No entanto, em razão da grande rivalidade entre russos e americanos, é difícil acreditar que Putin não esteja satisfeito com o escândalo.

"Temos bons laços com os EUA e não queremos que suas atividades políticas prejudiquem essa relação", disse Putin, descrevendo o diálogo que teve com Snowden e provocando gargalhadas entre os estudantes. "Vocês estão rindo, mas estou falando sério", disse o presidente russo.

De acordo com Putin, com base nas últimas declarações de Snowden, o americano estaria a ponto de aceitar as condições do Kremlin. A situação, no entanto, segundo Putin, "ainda é pouco clara".

Os EUA pressionam a Rússia e outros países para que não concedam asilo a Snowden. Três países latino-americanos - Bolívia, Nicarágua e Venezuela- ofereceram asilo ao ex-espião, mas não há voos diretos de Moscou para esses lugares, o que aumenta o risco de que ele seja preso ao fazer uma conexão em um terceiro país.

Segundo Glenn Greenwald, jornalista do Guardian, um dos jornais que publicou as informações secretas, os americanos estariam ansiosos para colocar as mãos em Snowden porque ele teria roubado o manual de instruções de como NSA atua. Segundo Greenwald, o manual tornaria possível a qualquer um escapar da vigilância dos EUA.

O jornalista disse à Associated Press que Snowden - que lhe entregou vários documentos secretos - insistiu para que o manual não se tornasse públicas. "Seria muito prejudicial ao governo americano se os detalhes desses programas fossem revelados", afirmou. / REUTERS, AFP, AP e NYT

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