EFE/EPA/ Michail Klimentyev/ Sputnik/ Kremlin Pool
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Putin alerta para 'degradação da civilização' e celebra extensão de acordo nuclear com os EUA

No primeiro discurso no Fórum Econômico Mundial em 12 anos, presidente russo ataca as gigantes da tecnologia e abre espaço para diplomacia com a Europa

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 09h00

MOSCOU - No dia em que EUA e Rússia finalizaram os detalhes para a extensão do Novo Start, o último acordo de controle de arsenais nucleares ainda em vigor entre os dois países que possuem o maior número de ogivas atômicas, o presidente Vladimir Putin afirmou que "o sistema de segurança global está em degradação", com riscos reais para todos no planeta.

Em seu primeiro discurso desde 2009 no Fórum Econômico Mundial, que este ano acontece de forma virtual, Putin declarou que acordos como o Novo Start são um bom começo, mas apontou que conflitos menores continuam a se multiplicar, muitos deles sem solução fácil.

Mesmo vendo paralelos com os anos que levaram à Segunda Guerra Mundial, como no enfraquecimento das instituições internacionais, apontou que um novo grande conflito é "praticamente impossível",  embora as condições possam mudar.

Horas antes de Putin fazer seu discurso, a Câmara Baixa do Parlamento russo, a Duma, aprovou a extensão do Novo Start, com 399 parlamentares votando a favor do projeto enviado na terça-feira pelo Kremlin. Ninguém votou contra.

Pelo plano, o acordo, assinado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev, passa a valer por mais cinco anos, sem alterações em seus princípios básicos, como o limite de 1.550 ogivas operacionais para cada um dos lados.

O texto é o último acordo bilateral de controle de arsenais ainda em vigor, e seu prazo chegaria ao fim no dia 5 de fevereiro caso nada fosse feito. Ao longo de 2020, EUA e Rússia iniciaram conversas sobre um novo prazo, mas o governo de Donald Trump evitou fechar posição, buscando um período menor de validade e, especialmente, incluir a China, que refutou a possibilidade de se juntar aos dois em um novo texto. Já o novo presidente americano, Joe Biden, se mostrava favorável à extensão, selada politicamente na terça-feira, em uma tensa conversa telefônica com Putin.

Outro ponto do discurso de Putin foi sua referência às grandes empresas de tecnologia, que, segundo ele, já competem em pé de igualdade com os governos, e começam a minar a legitimidade de instituições estatais através de práticas como monopólios em determinados setores.

Putin citou os eventos recentes no cenário político dos EUA, onde o ex-presidente Trump foi banido de algumas plataformas por incitar discursos de ódio e desinformação, e disse que as empresas estão tentando retirar das pessoas o direito de decidir como viver e como expressar suas posições políticas. E questionou se essas ações coincidem com os interesses da própria sociedade.

Ele não mencionou as ações do próprio governo russo para limitar a liberdade de expressão em plataformas digitais dentro do país: na semana passada, o Roskomnadzor, responsável por monitorar e eventualmente censurar conteúdos digitais, derrubou centenas de publicações em diversas plataformas, incluindo o TikTok e o Instagram, convocando para protestos a favor do opositor Alexei Navalni, preso há mais de uma semana. O órgão alegou que as publicações violavam as regras sobre a participação de menores de idades em "atos não autorizados".

Na terça-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, também fez críticas às "big techs", sugerindo que os países devem encontrar formas de limitar os monopólios, incluindo através de taxação ampliada, e impedir que elas ganhem mais força "antes que seja tarde demais".

Diferenças com Europa

Putin também reconheceu o estado complicado das relações com a Europa, mas fez questão de lembrar os laços culturais e civilizacionais com o continente.

"Nós compartilhamos alguns aspectos fundamentais. Temos uma cultura compartilhada", afirmou o presidente. "Na essência, somos uma civilização."

Ao mesmo tempo, apontou ser possível superar as muitas diferenças com os vizinhos, em temas como a crise na Ucrânia e na Bielo-Rússia, que levaram a sanções contra Moscou. Talvez se lembrando disso, Putin afirmou que "o amor é impossível quando declarado unilateralmente".

Na fala de pouco mais de 30 minutos, Putin defendeu ainda uma ação coordenada para enfrentar a pandemia do novo coronavírus, focando no desenvolvimento de novas vacinas e na ajuda a nações mais pobres, que encontram dificuldades para obter acesso à imunização. Para o líder russo, essa disparidade sanitária por si só é uma ameaça a todos no mundo./ AP e REUTERS

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