EFE/ Maxim Shipenkov
EFE/ Maxim Shipenkov

Putin atenua proposta de reforma da previdência após queda de popularidade

Em incomum pronunciamento na TV, presidente russo defendeu projeto para não 'destruir finanças do país', mas ofereceu contrapartidas como uma idade menor - 60 anos - para aposentadoria das mulheres e a manutenção de benefícios tributários

O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2018 | 11h13

MOSCOU - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs nesta quarta-feira, 29, suavizar a controvertida reforma da previdência proposta por seu governo e rejeitada pela grande maioria da população.

Em uma incomum mensagem à nação exibida pela TV, na qual defendeu o projeto, atualmente em análise no Parlamento, o chefe do Kremlin propôs aumentar a idade de aposentadoria para as mulheres em cinco anos (de 55 a 60), ao invés dos oito (até 63) que contempla o proposta original. O aumento da idade de aposentadoria para os homens permanece 65 anos.

"O tratamento na Rússia para as mulheres é especial, cuidadoso. Entendemos que elas não só trabalham em seus locais de trabalho, mas, como regra geral, se encarregam de toda a casa, com o cuidado da família, a educação dos filhos e as preocupações com os netos", assinalou Putin.

O presidente russo também explicou uma série de medidas para as mães, que poderão se aposentar em entre três e cinco anos antes, em função do número de filhos.

"Se a mulher tem três filhos, poderá se aposentar três anos antes do prazo. Se são quatro, serão quatro anos antes. Já para as mulheres que tenham cinco filhos ou mais, tudo deve continuar como até agora, elas poderão se aposentar aos 55 anos", acrescentou o líder russo.

Em seu longo discurso, Putin justificou o projeto, que foi anunciado no dia da abertura da Copa do Mundo, 14 de junho, alegando que a mudança "não pode ser mais adiada". "A longo prazo, mostrar dúvidas hoje pode ameaçar a estabilidade da sociedade e a segurança do país", disse o presidente.

"Sem reforma, mais cedo ou mais tarde destruiremos nossas finanças, seremos obrigados a assumir dívidas ou a imprimir dinheiro sem reservas, com as consequências que isto provoca: hiperinflação e aumento da pobreza", completou o presidente russo, para quem o desequilíbrio atual do sistema de aposentadorias é consequência direta da Segunda Guerra Mundial e do caos econômico e social dos anos 1990.

Direitos garantidos

Entre outras muitas medidas voltadas a suavizar o projeto inicial e reduzir o descontentamento popular, o líder russo propôs manter os benefícios tributários e as subvenções que correspondem aos aposentados a partir das idades contempladas na legislação atual.

As propostas de Putin serão incluídas no projeto de lei o mais rápido possível, afirmou o primeiro-ministro Dmitri Medvedev.

"São coisas muito importantes para a gente. Tais como o transporte público gratuito, subvenções para os serviços comunitários, reformas de imóveis, gaseificação, compra de remédios e outras", disse Putin.

O presidente russo também se referiu a uma das maiores preocupações dos cidadãos, que temem que os empregadores vão preferir demitir seus funcionários mais velhos ao invés de mantê-los em seus postos de trabalho até os 65 anos no caso dos homens e 60 no das mulheres.

"Considero necessário estabelecer a responsabilidade administrativa e inclusive penal pela demissão de trabalhadores em idade de pré-aposentadoria, assim como pela recusa de contratar cidadãos por sua idade (elevada)", comentou Putin.

Argumento dos opositores

Os críticos da reforma, aprovada em primeira votação no Parlamento em julho, afirmam que muitos russos, especialmente os homens - que têm expectativa de vida de 66 anos - não poderiam aproveitar a aposentadoria.

Putin, que não mencionou a questão da previdência durante a campanha que levou a sua reeleição em março, e que tentou distanciar-se da iniciativa, viu sua popularidade cair de 80% em maio para 64% em junho, de acordo com o centro russo de pesquisas de opinião VTsIOM.

O projeto provocou muitas manifestações em todo o país. O principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny, condenado na segunda-feira a 30 dias de prisão, convocou um protesto contra o projeto de lei para 9 de setembro, quando acontecerão eleições regionais e municipais na Rússia. / EFE, AFP e REUTERS

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