REUTERS/Lisi Niesner
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Putin, Bannon e a União Europeia

Há suspeitas de que o presidente russo e o ex-chefe de campanha de Trump estejam tentando interferir nas eleições europeias

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2019 | 05h00

Clima agitado nas eleições europeias. Até agora, elas se resumiam, na França, a um duelo violento entre Emmanuel Macron, um político devotado à União Europeia, e Marine Le Pen, do partido de extrema direita Reunião Nacional, hostil à UE. Mas eis que dois novos atores entraram em cena: Vladimir Putin e Steve Bannon

Já havia suspeitas de que o Kremlin vinha tramando, à sua maneira obscura e oblíqua, interferir nas eleições europeias. Suspeitas que se intensificaram depois do dia 9. Lembremos que a Áustria era governada desde dezembro de 2017 por uma coalizão conservadora do chanceler Sebastian Kurz, tendo como vice Heinz-Christian Strache, do partido ultradireitista FPÖ. A aliança parecia harmoniosa, mas espatifou em um espetáculo trágico de “vaudeville” trágico. 

No dia 7, os austríacos descobriram nas redes sociais um vídeo surpreendente. Eles viram Strache, quando ainda não era vice-chanceler, meio embriagado, em uma casa de Ibiza, propondo a uma senhora muito bela, ligada a um oligarca russo, fazer do maior jornal austríaco, o Kronen Zeitung, uma publicação às ordens do seu partido, em troca da assinatura de contratos públicos. A cena foi filmada por uma câmera escondida, em julho de 2017, três meses antes das eleições austríacas.

No vídeo, com duração de 7 horas, ele é visto explicando à bela senhora riquíssima que seus adversários na Áustria eram todos “drogados” ou “homossexuais”. Ele propõe a ela manipular as eleições usando o Kronen Zeitung e um canal de TV. A mulher achou a ideia ótima. Alguns dias depois, ela desapareceu. Não se sabe o seu destino. Ao que parece ela não tem parentesco com nenhum oligarca. Foi quando Strache percebeu, um pouco tarde, que caiu numa armadilha. Quem imaginaria essa armadilha diabólica? 

Sabemos há muito tempo que os partidos de ultradireita têm vínculos com Putin, que busca interferir no processo eleitoral da UE. Mas Putin é uma pessoa astuta. Se não for ele, então seria seu irmão, ou uma dessas sombras que habitam os corredores inextricáveis do Kremlin.

O outro protagonista estrangeiro é o americano Steve Bannon. Este é o homem que contribuiu para Donald Trump ser eleito presidente dos EUA. Como recompensa, se tornou estrategista do presidente. Mas, passado um ano, foi demitido.

Depois disso, foi visto de vez em quando. Viajava, fazia contatos e desaparecia. As eleições europeias, de repente, chamaram sua atenção. Ele viu uma oportunidade para infundir suas ideias. Seu desejo é lutar pela “civilização judaico-cristã”, contra o horror da UE. Ele faz um alerta contra as hordas de africanos, asiáticos, que chegam à Europa e tem esperança de que, nos partidos de direita, os “nacionalistas e os xenófobos destruam o bloco”. 

Por isso, ele está entusiasmado com a eleição. Para ele, as forças hostis a Bruxelas e favoráveis ao retorno de antigos valores (nação e religião) sairão reforçadas. E Bannon oferece a essas forças sua experiência. Ele acaba de chegar a Paris e está bem instalado no Hotel Bristol, cuja diária faz sonhar seus amigos, os “coletes amarelos”: 8 mil euros. Ali, ele recebe as pessoas e dá consultas. Os franceses o olham com desconfiança. Ele não estaria interferindo em assuntos externos de um Estado soberano? “De modo nenhum”, diz Bannon. “Se me reúno com Marine Le Pen, não estou interferindo nas eleições. Converso com ela. Trocamos ideias. Mas nenhuma ingerência.” 

Bannon aprecia também outros líderes europeus, como o italiano Matteo Salvini, o britânico Nigel Farage e o húngaro Viktor Orbán. Na Europa, ele frequenta muitos círculos e participa de conferências. Criou até escolas, uma delas em Roma, para formar políticos aptos a oferecer ensinamentos sérios e jovens esterilizados contra a vulgata marxista. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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