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Putin cancela visita que faria a Paris 

Kremlin anunciou decisão de adiar viagem do presidente russo depois que Hollande condicionou encontro a discussões sobre paz na Síria

Andrei Netto Correspondenten / Paris, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 22h23

O Kremlin anunciou nesta terça-feira, 11, que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, adiará por tempo indeterminado a visita a Paris prevista para o dia 19, na qual deveria fazer uma visita oficial ao presidente da França, François Hollande. 

A decisão é consequência do atrito cada vez mais evidente entre Moscou e Paris envolvendo as negociações de paz na Síria. A chancelaria russa chegou a confirmar, na semana passada, que Putin iria à capital francesa, mas o Palácio do Eliseu condicionou a reunião a avanços concretos sobre a situação no conflito sírio. 

A visita do líder russo estava prevista há mais de um ano e tinha como razão a inauguração de um imponente centro cultural e religioso (católico ortodoxo) em Paris, próximo à Torre Eiffel. 

No entanto, o atrito diplomático entre os dois presidentes cresceu, com a intensificação dos bombardeios do governo de Bashar Assad, apoiado pelas Forças Armadas da Rússia, contra a cidade de Alepo, no norte da Síria. 

No sábado, a França apresentou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas uma resolução que propunha um novo cessar-fogo e a retomada das negociações de paz, mas o texto foi vetado pela Rússia e teve apenas um voto contrário, o da Venezuela – a China, aliada de Moscou, não usou seu poder de veto.

Ainda no fim de semana, Hollande anunciou que não via razões para receber Putin em Paris se não fosse para debater os rumos da guerra na Síria. A resposta veio hoje, quando o Kremlin anunciou que o presidente russo adiaria a viagem por tempo indeterminado. 

“O presidente decidiu cancelar a visita”, informou o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov. “O presidente Putin havia indicado que estava pronto para ir no momento que fosse mais adequado para o presidente Hollande. Nós esperaremos que esse momento chegue e então avaliaremos se a questão está na ordem do dia.”

O atrito político mostra a degradação das relações entre os líderes da União Europeia e a Rússia. À tarde, em reunião no Conselho da Europa, Hollande voltou a condicionar uma reunião bilateral à busca pela paz na Síria, acusando Putin de impedir uma trégua no conflito.

“A França tem um desacordo maior com a Rússia sobre a Síria. O veto russo à resolução francesa no Conselho de Segurança impediu a trégua”, reclamou. “Eu estou pronto para encontrar o presidente Putin, em qualquer momento, mas se tivermos a possibilidade de fazer avançar a causa da paz, de parar os bombardeios e de proclamar a trégua.”

Os atritos bilaterais entre França e Rússia também têm como pano de fundo a disposição de Paris de solicitar ao Tribunal Penal Internacional (TPI) a abertura de uma investigação sobre eventuais crimes de guerra cometidos em Alepo. Trata-se de um recado diplomático ao regime de Assad e a Putin. 

Síria e Rússia não reconhecem a autoridade do TPI por nunca terem ratificado o tratado que criou a corte, especializada em crimes de guerra, contra a humanidade e genocídios. No entanto, a eventual abertura de uma investigação e uma condenação causaria constrangimento internacional aos dois países.

As divergências entre Hollande e Putin sobre a Síria também terão implicações na Europa Central. Na sequência da viagem do presidente russo a Paris, os dois líderes participariam de uma cúpula com a presença da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, sobre a paz na região de Donbass, leste ucraniano. Essa reunião foi suspensa e não havia confirmação de que aconteceria.

 

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