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Putin completa 20 anos de antagonismo com o Ocidente

Determinado a recuperar a grandeza perdida de seu país na arena internacional, presidente russo tentou construir pontes, mas acabou decepcionado

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 18h48

O presidente russo Vladimir Putin completa nesta terça-feira, 1, vinte anos de chegada ao Kremlin, período que começou com tentativas de cooperar com o Ocidente, nos primeiros anos, e terminou com a criação de antagonismos com os Estados Unidos e a União Europeia, na última década. 

"A relação entre Putin e o Ocidente tem sido muito dramática. Ele evoluiu de um relacionamento construtivo para uma rivalidade amarga e quase um confronto militar nos últimos anos", disse à agência Efe o cientista político Fiódor Lukiánov, chefe do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia.

Putin, determinado a recuperar a grandeza perdida de seu país na arena internacional, tentou construir pontes com o Ocidente – ele até tentou entrar na OTAN recebendo o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, no Kremlin em junho de 2000 –, mas ele ficou rapidamente decepcionado. A invasão do Iraque, em 2003, e a entrada dos países bálticos na Aliança Atlântica, em 2004, o convenceram de que a Rússia nunca seria aceita como igual na liga das nações democráticas; portanto, ele optou pelo antagonismo em cada rincão do planeta, da Europa ao Oriente Médio ou América Latina.

"O leitmotiv da política externa de Putin não mudou. Sua missão era impedir que a Rússia caísse no segundo ou terceiro nível. Tudo o que ele fez desde então responde a essa estratégia. E a verdade é que ele conseguiu. Esse risco já foi alcançado", explica Lukiánov, diretor da revista Rússia na política global.

Desde que proferiu seu discurso incendiário em fevereiro de 2007 em Munique, no qual acusou os Estados Unidos de tentar criar um mundo unipolar e realizar ações unilaterais fora do direito internacional, o confronto com o Ocidente se tornou realidade.

Nestes doze anos, Putin mudou a política internacional. Forjou uma aliança com a China, invadiu a Geórgia, reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, anexou a Crimeia, interveio na Ucrânia e na Síria e deu luz verde ao envio de mercenários para várias partes do globo.

Além disso, antes da inação da Casa Branca, ele se tornou o novo árbitro no Oriente Médio, impedindo a derrubada de Bashar al Assad, vendendo armas para a Turquia e a Arábia Saudita e estreitando os laços com o Egito, Israel e Iraque. Ele também voltou à África com força por meio de contratos de armas e na América Latina enfiou o dedo na ferida do quintal apoiando Nicolás Maduro na Venezuela e Evo Morales na Bolívia.

"A imagem que Putin tem no mundo ocidental não corresponde à realidade. Putin é semelhante a Merkel por ser pragmático. Ele não gosta de tomar decisões arriscadas e é um dos poucos líderes mundiais que têm toda a ordem mundial em sua cabeça. Ele pensa em termos de geopolítica e equilíbrio de forças no mundo. Isso não significa que suas cartas estejam corretas, mas ele tem essa visão", diz Lukiánov.

O Ocidente tentou punir a Rússia pela Crimeia e pela intervenção em Donbas com sanções econômicas, mas o resultado não foi o esperado, embora a economia russa esteja estagnada há anos, a renda dos russos não pare de cair e a suspensão da instalação do gasoduto Nord Stream 2 seja um sério revés para o Kremlin.

"As tentativas de isolar a Rússia não foram bem-sucedidas. E não porque a Rússia é muito forte, mas porque é muito grande e seu papel nos assuntos mundiais é muito significativo. Isolar a Rússia completamente é impossível", afirma Lukiánov.

A Rússia é uma potência regional com aspirações globais que tem problemas sociais e demográficos, mas o especialista lembra que a economia não determina o status diplomático e o sucesso depende não tanto da riqueza, mas também da estabilidade e da capacidade de resistir às pressões externas. 

"A interdependência se tornou uma arma de arremesso. Vemos isso com os EUA e a China. Putin procura outras maneiras de reduzir os riscos de dependência excessiva. A Rússia nunca foi totalmente integrada. Se na época era um defeito, hoje pode ser uma virtude", explica.

Quanto à imagem de que a Rússia é uma "ameaça" à democracia na Europa e nos Estados Unidos, ele acredita que a visão não mudará nas próximas décadas e relaciona-se tanto à alegada "agressividade russa" quanto à "profunda crise de identidade que o Ocidente está enfrentando". "Ninguém sabe o que acontecerá no futuro. E o mais fácil quando há medo e incerteza é culpar Putin por todos os problemas. Se a Rússia fosse outra civilização como a China, seria menos problemático, mas sendo um país europeu, sempre foi visto como algo estranho e perigoso", diz ele. /EFE

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