Putin, de novo Putin

Quando parecia derrotado, eis que o presidente russo surge, de repente, para deixar os líderes ocidentais estupefatos e sem resposta

GILLES, LAPOUGE, CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2014 | 02h01

Há menos de oito dias, o pesadelo ucraniano terminava. Os heroicos democratas que ocupavam a Praça Maidan, em Kiev, há três meses tentando acabar com a influência de Moscou, foram vitoriosos. Viktor Yanukovich, a marionete manejada pelo presidente russo, Vladimir Putin, fugiu. As capitais ocidentais, que não ajudaram muito, comemoraram. Além disso, para grande prazer, o arrogante Putin parecia cabisbaixo. Com certeza, ele se lastimava em um canto do Kremlin, mas estava em silêncio.

Na realidade, ele não se lastimava, mas preparava sua revanche. E seu silêncio tinha muito ruído e furor. Repentinamente, Putin se apossa de uma parte da Ucrânia, a Crimeia, diante de um Ocidente impotente, paralisado, espantado. No entanto, o que surpreende é o espanto. Era bastante previsível que Putin reagiria à perda da Ucrânia. Além disso, se os diplomatas ocidentais tivessem retomado seus cursos de história e geografia, teriam imaginado que essa reação imprevista teria lugar na Crimeia.

Desde tempos imemoriais, a infelicidade da Rússia, sua obsessão e sua ideia fixa é o fato de não ter saída para o mar. As estratégias políticas de Pedro, o Grande e de Catarina II, no século 18, são explicadas, em parte, por essa necessidade eterna da Rússia. Esse imenso continente dispõe de apenas três saídas marítimas: Vladivostok, que está no fim do mundo. Murmansk, nos mares polares, e a Crimeia, que tem as chaves do Mediterrâneo, do Canal de Suez e do Oceano Índico. Para Moscou, perder a Ucrânia é ter a porta dos oceanos batendo no seu nariz.

Ora, depois de perder a Ucrânia, em 1991, com o colapso da União Soviética, Moscou teve o cuidado de conservar uma base na região. A Ucrânia arrendou para os russos uma enorme base naval na Crimeia, que permite aos russos manterem ali centenas de navios de guerra e 20 mil homens. Sem dúvida, a Crimeia é parte da Ucrânia e apossar dela é infringir o direito internacional. Putin, contudo, preferiu infringir o direito internacional.

Eis porque, do fundo do seu silêncio, ele enviou seus soldados para a Crimeia e esse homem, que os jornais há cinco dias descreviam como um "tigre de papel", conseguiu retornar em poucas horas ao centro do jogo oferecendo aos diplomatas europeus mais um abacaxi para descascar.

Primeiramente, estupefatos, os ocidentais se recompuseram algumas horas depois, afirmando que não é muito bonito você se apossar de uma parte de um país estrangeiro. Mas e depois? Bom, em seguida, as coisas ficaram mais complicadas. É preciso reconhecer que a consternação dos ocidentais é legítima. Eles não têm muito controle dos eventos, uma vez que a opção militar está descartada.

O aliado que os ocidentais dispõem na Ucrânia, que é o novo governo interino em Kiev, é frágil. Esse governo, na euforia da vitória, já cometeu várias besteiras e uma delas foi suprimir o russo como segunda língua da Ucrânia nas regiões onde ele é mais falado, como na Crimeia, por exemplo, onde a maioria da população é russa.

Além disso, trata-se de um governo provisório. Não foi eleito, mas reunido pelos vencedores da Praça Maidan. Não se trata de um governo de união nacional, pois é inteiramente controlado pelos aliados de um dos ícones mais explosivos do mundo, Yulia Tymoshenko.

Esse poder provisório demonstrou energia, pois decretou a mobilização do Exército ucraniano. O problema é que as forças armadas ucranianas, após o governo de Yanukovich, formam hoje um Exército fragmentado e sem armamento. Eis o peão com o qual a Europa pode contar entre seus amigos ucranianos: um governo sem Estado, sem finanças e sem Exército. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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