AFP Photo/ Sputnik/ Alexey Nikolsky
AFP Photo/ Sputnik/ Alexey Nikolsky

Putin dificilmente deixaria um ataque à Síria sem retaliação

Presidente russo já deu exemplos de resposta em conflitos anteriores; canais estatais passaram a dar dicas aos cidadãos em caso de ataque nuclear

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2018 | 09h30

MOSCOU - O presidente Vladimir Putin tem um dilema diante da ameaça de ataque americano contra a Síria. Ele pode permitir que os mísseis atinjam o alvo sem nenhuma retaliação ou arriscar um choque militar com os Estados Unidos. Se for encurralado por um ataque, Putin dificilmente vai se manter calmo. A inação ameaçaria seus ganhos duramente conquistados na Síria e o prestígio russo, além de corroer sua imagem de durão. O chefe do Estado Maior das Forças Armadas Russas, general Valery Gerasimov, advertiu que um ataque dos EUA ameaçaria militares russos na Síria e geraria um contra-ataque tanto aos mísseis americanos como aos navios e aviões que os lançaram. A declaração assinalou a prontidão de Moscou para proteger seu aliado, ainda que isso implique no confronto direto com os EUA.

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Com as tensões em alta, navios de guerra russos saíram de sua base no porto sírio de Tartus, numa ação que o general aposentado Vladimir Shamanov descreveu como manobra para evitar possível baque causado pelos EUA. A Rússia também tem dúzias de aviões de guerra na base aérea de Hemeimeem, juntamente a uma matriz de sistemas antimísseis avançados e o sistema Bastion, que protege a costa. Os mísseis têm um alcance de até 450 quilômetros. Em caso de escalada, Putin ainda poderia usar as bases aéreas do Irã, seu aliado, e ter mais aviões próximos da Síria. Rúsia tem usado o território sírio como campo de testes para suas novas armas, incluindo mísseis de longo alcance, como o Kalibr, lançado pelo mar, e os mísseis de cruzeiro Kh-101; ambos podem ser disparados a partir do Mar Cáspio ou de outras áreas na Rússia ocidental.

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Escalada.

O embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, disse que a prioridade é evitar a guerra e que não descarta as possibilidades de um conflito russo-americano. Ele disse a repórteres na quinta-feira, 12, que "o perigo de escalada é mais alto do que simplesmente a Síria" e espera que não haja algum "ponto sem volta e que EUA e seus aliados se abstenham da ação militar contra um Estado soberano". No entanto, diante das tensões crescentes, a televisão russa e outras mídias oferecem dicas aos cidadãos em caso de ataque nuclear. Os programas de entrevistas em horário nobre da TV estatal apresentam legisladores experientes e especialistas militares em discussões acaloradas sobre o possível confronto entre Rússia e EUA, incluindo o caso de uma guerra nuclear total.

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O especialista militar Mikhail Khodanerok argumentou que a Rússia deve retaliar qualquer ataque dos EUA e que não fazê-lo prejudicaria a reputação do país. "Significará vergonha geopolítica e perdas de reputação colossais. Não podemos nos arriscar a sermos humilhados", disse no canal estatal Rossiya. "Estados Unidos, se preparem para nossas velhas e confiáveis ogivas nucleares de 10 megatons". Alexei Pushkov, chefe do comitê de assuntos de informação na câmara alta do parlamento, adotou tom mais moderado e disse que seu país tem armas convencionais para se defender, "Devemos evitar um conflito nuclear. Devemos proteger nossa aliada Síria sem cair num precipício nuclear", acrescentou.

Reação.

"É o nosso presidente que decide o destino do mundo", declarou o líder ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky na televisão estatal do país. Nas crises recentes, Putin reagiu derrubando o tabuleiro de xadrez. Quando o líder ucraniano próximo ao Kremlin foi deposto depois de protestos em massa em fevereiro de 2014, Putin reagiu ao que chamou de "golpe manobrado pelos EUA" e enviou tropas à Crimeia imediatamente. Em seguida, anexou a península do Mar Negro.

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Mais tarde, ao comentar sobre tais eventos, ele afirmou que estava pronto para colocar as forças nucleares da Rússia em alerta máximo caso viessem "desenvolvimentos mais negativos" em meio a tensões com o Ocidente sobre a Crimeia. Putin avisou líderes ocidentais que seu país estava pronto para lutar pela Crimeia. Moscou seguiu em frente, apoiando rebeldes separatistas no leste da Ucrânia e não mudou sua ação diante frente às várias sanções dos EUA e União Europeia. Quando o governo do presidente sírio Bashar al-Assad estava à beira de um colapso em 2015, Putin levou apenas algumas semanas para montar uma campanha militar que salvou seu aliado de longa data e, eventualmente, virou a guerra a seu favor.

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Inevitável.

Em documentários recentes, o presidente compartilhou memórias de sua juventude num bairro operário de São Petesburgo, à época chamada Leningrado. Ele contou que aprendeu lições que duraram toda a vida. "As ruas de Leningrado me ensinaram, 50 anos atrás que, quando uma luta é inevitável, você deve atacar primeiro", revelou. Outro episódio relatado foi de quando encontrou um rato na portaria decadente do prédio em ruínas onde morava. Depois de encurralar o animal, virou as costas e foi atacado pelo bicho. "Ela correu e me perseguiu, pulando de um lance de escadas para outro e tentou até pular na minha cabeça", relembrou, durante entrevista recente, acrescentando que "você não deve encurralar ninguém".

Diplomacia.

Um ano atrás, Putin alimentava esperanças de laços melhores com os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump. Depois do suposto ataque químico na Síria ainda no ano passado, ele permitiu que a retaliação aérea ficasse sem resposta, aparentemente deixando a porta aberta para melhores relações com Washington. Moscou, que foi avisada pelos EUA para tirar seus militares do caminho dos mísseis, limitou sua reação a declarações de protesto iradas. Agora que as expectativas de uma relação boa com Trump fracassaram, e em meio às investigações sobre a intervenção russa nas eleições presidenciais americanas, é pouco provável que Putin demonstre a tolerância de antes. // AP

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