Tatyana Zenkovich/Pool via AP
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Putin diz que tropas podem intervir na Bielo-Rússia 'se for necessário'

Bielo-Rússia tem protestos ininterruptos pedindo a renúncia do governo há três semanas

Isabelle Khurshudyan / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 11h01

MOSCOU - A Rússia tem um contingente militar pronto para intervir na Bielo-Rússia em nome do presidente Alexander Lukashenko "se for necessário", informou o presidente russo Vladimir Putin nesta quinta-feira, 27.

Os primeiros comentários públicos de Putin sobre as manifestações pós-eleição na Bielo-Rússia são a indicação mais definitiva de que Moscou está apoiando Lukashenko após quase três semanas de protestos em massa pedindo sua saída. 

"(Lukashenko) me pediu para formar uma certa reserva de policiais, e eu fiz isso", disse Putin durante uma entrevista surpresa de 20 minutos na televisão estatal. "Concordamos que (o contingente militar) não será usado até que a situação saia do controle e até que elementos extremistas, sob o pretexto de slogans políticos, cruzem certas fronteiras - comecem a saquear, comecem a incendiar carros, casas e bancos, apreendam prédios administrativos e assim por diante". 

O presidente russo acrescentou, no entanto, que essa necessidade não existe no momento. A Bielo-Rússia tem manifestações diárias desde 9 de agosto, quando Lukashenko, de 65 anos, afirmou que ganhou um sexto mandato como presidente do país com mais de 80% de apoio. O resultado foi denunciado como falso tanto pela oposição bielo-russa quanto pelos governos ocidentais.

Putin e Lukashenko tiveram cinco conversas telefônicas desde o início dos protestos. No início, Lukashenko disse que Moscou havia prometido ajuda militar, mas o Kremlin esclareceu que isso se aplicaria apenas em caso de ameaça externa, conforme determinado em um acordo de 1999 que une a Bielo-Rússia e a Rússia política e militarmente.

Embora Putin tenha alertado os líderes ocidentais para ficarem fora dos assuntos internos da Bielo-Rússia, seus comentários na quinta deixaram em aberto a opção para a Rússia sair em auxílio de Lukashenko - uma medida que soaria alarmes no Ocidente e aprofundaria as tensões com Moscou.

"Na minha opinião, somos muito mais equilibrados e neutros em relação aos eventos na Bielo-Rússia do que muitos outros países da Europa e os EUA", disse Putin. "Acreditamos que este é um assunto para a própria sociedade bielo-russa, para o povo bielo-russo. Mas certamente nos preocupamos com o que está acontecendo". 

Os comentários foram feitos no momento em que a principal candidata da oposição, Svetlana Tikhanovsksaya, recebe apoio simbólico dos líderes da União Europeia, que disseram não reconhecer o resultado da eleição.  

Dois dias atrás, ela se dirigiu aos parlamentares europeus na Lituânia dizendo que a "revolução pacífica na Bielo-Rússia não é pró-Rússia nem anti-Rússia, nem é anti-europeia ou pró-europeia". 

Ao analisar o cenário sob a ótica russa, Dmitri Trenin, diretor do Carnegie Moscow Center, escreveu que o Kremlin "não pode permitir que a Bielo-Rússia siga o caminho da Ucrânia e se torne outro baluarte anti-russo inclinado à OTAN" - este ainda mais próximo de Moscou. "Nem pode permitir uma rebelião que leve a um banho de sangue", ponderou. 

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