Putin e as mortes em Katyn

Ontem, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, e o primeiro-ministro, russo, Vladimir Putin, foram à floresta polonesa de Katyn, na fronteira da Rússia. O encontro destes dois é algo inimaginável, enigmático.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

No entanto, estava ocorrendo: russos e poloneses lembravam lado a lado, com 70 anos de atraso, uma das ignomínias da 2.ª Guerra. Ignomínia ordenada por Joseph Stalin. Em 5 de março de 1940, o Politburo, ou seja, Stalin, deu ao serviço secreto NKVD a ordem de executar 25.700 poloneses detidos nos campos de Kozielsk, Starobielsk e Ostachkov, e mais 11.000 presos na Ucrânia e na Bielo-Rússia.

No caos do verão de 1939, a infâmia passou despercebida. Mas em abril de 1943, o Exército alemão descobriu perto de Katyn uma vala comum com os corpos de 4.500 oficiais poloneses. Moscou denunciou o crime atribuindo a autoria aos alemães. Stalin mentiu. No entanto, todas as investigações convergiam: os poloneses foram executados pelo NKVD com uma bala na nuca.

Voltando um pouco no tempo, em 23 de agosto de 1939, havia sido assinado o pacto de amizade germano-soviético por Molotov e Ribbentrop, que dividiram a Polônia entre si. Uma semana mais tarde, Hitler invadiu a Polônia. Mais duas semanas, e Stalin irrompia na parte da Polônia que lhe havia sido atribuída. A Polônia desaparecia, engolida pelos dois predadores.

Por que Stalin comandou o massacre? Todos esses oficiais poloneses, a nata da juventude da nação, representavam para Stalin "inimigos de classe", portanto deviam ser eliminados porque poderiam insuflar um movimento de resistência contra o ocupante soviético. Mas as famílias dos mártires tornaram-se um problema. O que fazer com elas? Stalin teve uma ideia: seriam deportadas para a Ásia Central.

A guerra acabou. Katyn permaneceu um "assunto tabu". Cada vez que era levantada uma suspeita, o Kremlin respondia apontando os autores do massacre: os alemães. Esta "omertà" fantasmagórica prolongou-se. Somente na agonia da URSS o silêncio foi quebrado.

Gorbachev sucedeu às "múmias". Em 1990, apresentou um pedido de desculpas ao povo polonês e transferiu uma parte dos arquivos para Varsóvia. Sucessor de Gorbachev, Boris Yeltsin entregou ao polonês Lech Walesa outros documentos. Mas Vladimir Putin, ex-KGB, sucedeu a Yeltsin. E o silêncio voltou. Ontem, o próprio Putin visitava Katyn, Estranho. Putin não havia "reabilitado" a URSS e Stalin? Até pouco tempo, as relações entre os dois países eram execráveis. Moscou fazia duas pesadas críticas à Polônia: pelo apoio dado à "Revolução Vermelha" na Ucrânia, e por aceitar o projeto (atualmente abortado) do escudo antimísseis dos EUA.

Recentemente, os dois países se reaproximaram. Varsóvia assinou um contrato de gás com a Rússia, e é anunciada a visita à Polônia do patriarca da Igreja ortodoxa russa. Sim, mas e Katyn? Será possível que Putin reconheça o erro de Moscou? O que acontecerá agora? Um pedido de desculpas? É improvável. Talvez a publicação da investigação da Justiça militar russa e a reabilitação das vítimas. Varsóvia aguarda.

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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