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Putin e Damasco

PARIS - Na quarta-feira, o Ocidente se preparava para a guerra contra a Síria, para "puni-la" - como disse o presidente francês François Hollande - pelo assassinato dos seus cidadãos com armas químicas, proibidas pelas convenções internacionais. Os britânicos já estavam na linha de largada. Na França, Hollande estava cheio de confiança, perfeitamente organizado. Os EUA ameaçavam, pela voz de seus políticos mais autorizados.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2013 | 02h18

Hoje, o mundo continua enfurecido com a Síria, mas, em lugar de esbravejar, como há dois dias, os líderes ocidentais sussurram. A intervenção continua na ordem do dia, mas não é mais a mesma. Para começar, é menos urgente. Os próprios britânicos, antes tão impetuosos, afirmam hoje que é preciso esperar um pouco. Além disso, durante a noite, o plano de guerra se reduziu, encolheu. Hollande, que antes se mostrava mais enérgico do que nunca, hoje explica que é preciso agir militarmente, é claro, mas apenas para facilitar uma saída diplomática.

Como explicar a mudança de tom geral? Em razão das palavras prudentes de Barack Obama? Será? Hoje, dois homens desempenham um papel essencial na questão da Síria: Obama e Vladimir Putin. As teses flutuantes, prudentes, moderadas, pacíficas de Obama são conhecidas. Mas, e Putin?

O apoio russo à Síria permanece imutável. Putin não reduziu as remessas de armas a Bashar Assad. Ao contrário. O Exército sírio não só continua forte como está bem abastecido de peças de reposição. O estoque de armas químicas da Síria é russo e, evidentemente, os russos sabem em que ponto do território sírio essas munições diabólicas estão estocadas.

Como explicar tal obstinação? Foram apresentados vários motivos. Em primeiro lugar, a Rússia dispõe de uma única base no Mediterrâneo - e ela se encontra na Síria. Por outro lado, a Rússia tem em seu império de repúblicas muçulmanas caucasianas. Ela não deixará de se interessar por um país muçulmano. Essas explicações serão suficientes? É duvidoso. Certamente, poderíamos ter uma visão mais clara se analisássemos o drama atual, não sob uma hipótese de "curto prazo", mas sob o que os historiadores modernos chamam de "longo prazo".

As estreitas relações entre a Síria e Moscou não datam de hoje. Datam de 1970, época em que não era a Rússia, mas a União Soviética. Isto nos convida a compreender o papel diplomático exercido ao redor de Damasco à luz de um fenômeno lento e poderoso que chamaremos de "a sovietização de Putin".

Os sinais desse retorno ao passado soviético são abundantes, principalmente depois que Putin, após o intermezzo burlesco de Dimitri Medvedev, voltou a ser o senhor absoluto do imenso país. Alguns sinais disto são a reintrodução do hino soviético, os livros de texto (como A história da Rússia do século 20 ao início do 21) distribuídos nas escolas, onde lemos: "Stalin permitiu a edificação rápida da sociedade mais justa do mundo recuperando o atraso qualitativo dos meios de produção".

Outro aspecto da sovietização é o culto de um patriotismo ou de um nacionalismo ao mesmo tempo exagerado e angustiado. Putin descreve o país como "sitiado". Ele alimenta e produz um "complexo claustrofóbico" e se apresenta como um pai capaz de resistir a essas forças externas deletérias que contaminam o país.

A consequência lógica é que o novo Putin, em lugar de cortejar as camadas esclarecidas, dinâmicas e jovens da sociedade, como fez nos seus dois mandatos anteriores (2000-2008), hoje, bajula de preferência os elementos retrógrados, velhos, funcionários, serviços de segurança, operários, em suma, todos os que reclamam um poder forte.

Podemos supor que os desafios que Putin multiplica na Síria ocorrem dentro dessa estratégia. A Rússia de Putin "sente-se" (e talvez, se queira) só, contra todos. Ou melhor: "Só, contra o Ocidente". Nesse sentido, compreende-se que o apoio de Moscou à Síria, contra a totalidade do Ocidente, se inscreve naturalmente no desejo mais profundo de Putin.

Essa posição antiocidental, longe de chocar as populações russas, as lisonjeia. Evidentemente, às vezes, grandes furores explodem nas ruas russas contra a corrupção, contra a deterioração dos serviços. Entretanto, jamais assistimos à menor manifestação de multidões hostis ao apoio que o Kremlin concede incansavelmente à Síria de Assad.

Ontem pela manhã, foi anunciada a chegada ao Mediterrâneo de dois navios de guerra russos, um lança-mísseis e um navio equipado para o combate a submarinos. Em outras épocas, essa decisão seria colocada na coluna Guerra Fria.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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