Mustafa Kamaci/Turkish Presidential Press Office/Handout via Reuters
Mustafa Kamaci/Turkish Presidential Press Office/Handout via Reuters

Putin e Erdogan anunciam histórico plano para Síria, reforçando influência russa

Forças curdas sírias têm seis dias para recuar a mais de 32 km da fronteira, abandonando as terras que eles controlavam até o início deste mês, quando seu protetor, o Exército americano, começou a se retirar da região

Anton Troianovski e Patrick Kingsley / The New York Times , O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 20h05

SOCHI, RÚSSIA - Seus jatos patrulham o céu da Síria. Suas forças armadas expandem as operações na principal base naval síria. Ele está criando laços mais estreitos com a Turquia. Com seus aliados sírios, está se mudando para o território que os Estados Unidos desocupam.

E nesta terça-feira, o presidente Vladimir Putin, da Rússia, recebeu o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, por mais de seis horas de negociações sobre como eles e outros participantes regionais dividirão o controle da Síria, uma terra devastada por oito anos de guerra civil.

As negociações cimentaram a vantagem estratégica de Putin: tropas russas e turcas assumirão o controle conjunto sobre uma vasta área do antigo território curdo no nordeste da Síria. A mudança fortalece a rápida expansão da influência russa na Síria às custas dos Estados Unidos e de seus antigos aliados curdos.

Sob os termos do acordo, as forças curdas sírias têm seis dias para recuar a mais de 32 quilômetros da fronteira, abandonando as terras que eles controlavam sem contestação até o início deste mês - quando seu protetor, o Exército americano, começou a se retirar repentinamente da região. A liderança curda síria não respondeu imediatamente ao anúncio.

Erdogan também conseguiu a maior parte do que queria - uma zona de segurança livre de uma milícia que a Turquia considera uma ameaça terrorista -, mas custou compartilhar o controle da área com Putin e o presidente sírio, Bashar Assad, a quem Erdogan se opõe há muito tempo.

"Somente se a soberania e a integridade territorial da Síria forem respeitadas, é possível obter uma estabilização sólida e duradoura na Síria", disse Putin ao lado de Erdogan após a reunião.

"É importante que nossos parceiros turcos compartilhem essa abordagem", acrescentou Putin. “Os turcos terão de defender a paz e a calma na fronteira junto com os sírios. Isso só pode ser feito na atmosfera de respeito e cooperação mútuos. ”

Putin emergiu como a força dominante na Síria e uma importante negociador de poder no Oriente Médio - um status demonstrado pela viagem organizada às pressas por Erdogan à casa de verão do presidente em Sochi. E parece cada vez mais claro que a Rússia, que socorreu o governo Assad com ataques aéreos brutais nos últimos quatro anos, será o árbitro do equilíbrio de poder no país.

Enquanto o presidente  Donald Trump questiona as alianças dos EUA e o envio de tropas ao redor do mundo, a Rússia, como a China, vem mostrando sua força, ansiosa para preencher o vácuo de poder deixado pelos americanos, cada vez mais numa posição isolacionista. Na Síria, Putin e Erdogan veem oportunidade na súbita retirada de Trump, este mês, das forças americanas no país.

Erdogan há muito tempo queria ir à guerra contra as forças lideradas pelos curdos que controlam o nordeste da Síria, mas não se atrevia, uma vez que os EUA, aliados dos curdos, estavam lá também. Ele respondeu à retirada de Trump lançando uma invasão.

A reunião desta terça-feira começou horas antes do final de uma trégua intermediada pelos EUA entre as forças turcas e curdas na Síria, onde Erdogan diz que suas tropas apreenderam mais de 2.330 quilômetros quadrados de território desde a invasão de 6 de outubro.

“Os EUA ainda são os gorilas de mais de 220 quilos”, disse Howard Eissenstat, especialista da Turquia no Projeto Democracia no Oriente Médio, um grupo de pesquisa com sede em Washington. "Se os EUA decidissem que o 'problema X' era uma preocupação primordial para sua segurança nacional, haveria muito pouco que alguém na região pudesse fazer a respeito."

Mas com os Estados Unidos se retirando do cenário - como simbolizado na mídia russa pelas imagens de máquinas de lavar abandonadas e latas fechadas de Coca-Cola deixadas para trás na caótica retirada - agora é da Rússia o consentimento tácito que Erdogan precisa para consolidar e ampliar seus ganhos.

“Antes, a Turquia podia jogar os EUA contra a Rússia e a Rússia contra os EUA”, disse Sinan Ulgen, presidente do Centro de Estudos de Economia e Política Externa, um grupo de pesquisa com sede em Istambul. “Agora, esse não é mais o caso, e a Rússia se transformou no único equivalente real da Turquia na Síria.”

A reunião de terça-feira parecia ser o ápice da longa estratégia de Putin de aproveitar as divisões ocidentais para estreitar laços com a Turquia - um membro da Otan e importante aliado dos EUA por muito tempo - e aumentar a influência de Moscou no Oriente Médio.

Mensagem russa é de que país mantém sua palavra

Enquanto os Estados Unidos e a Europa Ocidental vacilavam em sua abordagem à Síria - para a frustração da Turquia e de outras potências do Oriente Médio - a Rússia decidiu proteger seu aliado, Assad, e continuou com ele, apesar das críticas acirradas do Ocidente de que o governante sírio era um déspota brutal.

A mensagem, dizem os russos agora, é que, embora seu país não possua o poder econômico do Ocidente, pode-se contar com ele para manter sua palavra.

“Algumas pessoas estão furiosas novamente, outras ficam com ciúmes e outras são atraídas pelo poder”, disse Dmitri Kiseliov, destacado apresentador de um programa de notícias na televisão estatal, aos telespectadores no domingo à noite. “Seja qual for o caso, Erdogan está voando para a Rússia para se reunir com Putin.”

As negociações chamam a atenção para a perda da influência dos EUA desde que Trump ordenou que as tropas se retirassem do nordeste da Síria - elas migraram para o Iraque momentaneamente, segundo autoridades americanas. A retirada não só abriu o caminho para o ataque da Turquia aos aliados dos EUA, mas também levou os líderes curdos da região a voltarem-se para o governo de Assad e seu principal patrocinador, a Rússia, por proteção. 

Essa aliança repentina permitiu que as forças do governo sírio voltassem a partes do nordeste da Síria, onde eles não entraram em meia década e colocaram Putin em situação ainda mais proeminente nos assuntos sírios.

“A situação na região é muito tensa - entendemos isso”, disse Putin ao iniciar as negociações com Erdogan.  “Gostaria de expressar a esperança de que o nível das relações russo-turca alcançado recentemente exerça um papel importante na resolução de todos os problemas que a região encontrou e ajude a encontrar respostas para todas as perguntas, mesmo as muito difíceis, no interesse da Turquia, Rússia e todos os países."

A televisão russa mostrou Putin parecendo relaxado enquanto proferia seus comentários iniciais, recostando-se e com as mãos sobre um apoio da poltrona. Erdogan, de sua parte, sentou-se reto enquanto olhava para o colega russo.

Putin, que gosta de colocar suas cunhas em alianças ocidentais, se aproximou de Erdogan, cujas relações com a Europa e os Estados Unidos têm sido instáveis. Eles se encontraram oito vezes este ano, segundo Yuri Ushakov, consultor de política externa do Kremlin.

Em julho, a Turquia desafiou as advertências ocidentais e começou a receber um sistema russo de mísseis antiaéreos, levando os Estados Unidos a cancelar a compra pela Turquia de caças fabricados nos EUA. A Otan alertou que a compra poderia servir para revelar segredos tecnológicos ocidentais à Rússia e que as armas russas eram incompatíveis com os sistemas da aliança.

Putin também cultivou laços com o aliado mais próximo dos Estados Unidos na região, Israel, e seu adversário mais ferrenho, o Irã, outro partidário de Assad.

A Rússia “não tem capacitação econômica ou militar dos EUA”, disse Eissenstat, “mas tem sido muito esperta em usar seu poder de maneira limitada e eficaz”.

Os combatentes curdos conseguiram abrir sua própria região autônoma no nordeste da Síria, livre de controle do governo, em meio ao caos da guerra civil de oito anos. Eles se referem à região por Rojava. Eles expandiram muito seu território a partir de 2015, quando se tornaram o principal parceiro sírio de uma coalizão liderada pelos EUA, trabalhando para derrotar militantes do grupo Estado Islâmico.

Quando os combatentes curdos conquistaram terras do Estado Islâmico, eles assumiram seu governo, estabelecendo o controle sobre quase um quarto da Síria.

A meta de Erdogan é criar uma zona tampão ao longo de toda a extensão da fronteira entre a Turquia e a Síria, a cerca de 32 quilômetros. 

Erdogan encara as principais milícias curdas no nordeste da Síria, conhecidas como Forças Democráticas da Síria, como uma ameaça à segurança nacional turca, uma vez que o grupo é um desdobramento de um movimento de guerrilha que desencadeou uma insurgência de décadas na Turquia.

“Compreendemos a preocupação da Turquia quanto a garantir sua segurança e ante a necessidade de combater elementos terroristas”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, a repórteres, antes da reunião. “Mas também esperamos que todas as ações sejam proporcionais a essas preocupações e que essas ações não dificultem o processo de uma solução política pacífica na Síria.”

Para Putin, a reunião com Erdogan oferece a chance de solidificar e estender o poder de Assad.

O presidente tentou projetar sua própria influência na terça-feira, visitando a Província de Idlib, no noroeste, pela primeira vez desde que a área ficou fora de controle do governo há vários anos. Ele foi fotografado perto da linha de frente de uma batalha entre rebeldes e seus próprios militares, em imagens divulgadas por uma agência estatal de notícias. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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