Putin e o poder de ampliar a tensão

Líder russo retoma retórica antiamericana que caracterizou seus primeiros 8 anos no Kremlin

É JORNALISTA, HENRY, MEYER, BLOOMBERG NEWS, É JORNALISTA, HENRY, MEYER, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h09

Com sua volta à presidência da Rússia, Vladimir Putin provavelmente exacerbará as tensões com os EUA e a Europa enquanto eles tentam conter as ambições nucleares do Irã e pôr fim ao derramamento de sangue na Síria, afirmaram estrategistas de Moscou a Nova York. Comemorando seu novo mandato de seis anos na presidência, depois da vitória nas urnas há uma semana, Putin agradeceu a seus partidários por apoiarem a "Grande Rússia".

"Putin compreende a geopolítica em termos de uma competição de soma zero no que diz respeito aos interesses ocidentais, e particularmente os interesses americanos", disseram por e-mail Jenia Ustinova e Alexander Kliment do Eurasia Group, em Nova York. "Depois de quatro anos da posição relativamente mais branda do presidente (Dmitri) Medvedev, o tom da política externa de Moscou em relação ao Ocidente deverá mudar."

O líder russo terá a oportunidade de bloquear a política americana e europeia no Oriente Médio, rico em petróleo, a região duramente afetada pela guerra civil na Síria e sob a ameaça de um ataque militar israelense contra o Irã.

A Rússia reiterou na terça-feira que não apoiará a interferência internacional para derrubar o sírio Bashar Assad. Putin disse em fevereiro que o Ocidente tenta provocar uma mudança de regime no Irã sob a alegação de que é preciso deter suas ambições nucleares.

Nas semanas que antecederam à sua reeleição, com 64% dos votos, Putin retomou a retórica antiamericana que caracterizou seus primeiros oito anos no Kremlin, de 2000 a 2008, acusando os EUA de procurar "vassalos" e não aliados, e criticando os planos americanos de instalar os elementos de um escudo de defesa antimísseis na Europa Oriental.

"A segurança do mundo só será possível com a Rússia e não tentando prejudicar sua imagem e enfraquecendo sua posição geopolítica", disse Putin em um manifesto pré-eleitoral sobre política externa. Nos próximos dez anos, a Rússia gastará 23 trilhões de rublos (US$ 774 bilhões) para modernizar as Forças Armadas com armamento de última geração, afirmou o jornal Rossiiskaya Gazeta.

Quando assumiu a presidência depois de Putin, em 2008, Medvedev, que está deixando o cargo, procurou melhorar as relações com os EUA. Os dois países assinaram um novo pacto de redução de armas nucleares e negociaram o ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC) após uma espera de 18 anos.

Embora a Rússia seja contrária a uma ação militar ou ao aumento das sanções contra o Irã, apoiou o apelo da comissária da União Europeia para Política Externa, Catherine Ashton, para que Teerã procure um "solução plena" para o impasse, esclarecendo pontos do seu programa nuclear. A Rússia é um dos seis países que negociam com o Irã, ao lado de EUA, França, China, Grã-Bretanha e Alemanha. Medvedev também aprovou uma resolução da ONU autorizando uma ação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Líbia para proteger a população civil - o que levou à queda de Muamar Kadafi.

No entanto, as eleições líbias provocaram um desentendimento entre Medvedev e Putin e, à medida que a campanha da Otan prosseguia, surgiram na Rússia acusações de que a aliança militar estaria ultrapassando o mandato da ONU para obter uma mudança de regime. A ação para depor Kadafi depois do gesto de Medvedev confirmou para Putin a abordagem "muito suspeita" em relação aos EUA, segundo Fyodor Lukyanov, analista do Conselho para a Política Externa e a Defesa em Moscou.

Numa reunião realizada na semana passada com jornalistas estrangeiros, Putin descreveu Kadafi, que governou a Líbia por quatro décadas, como "absolutamente desequilibrado e ultrapassado", denunciando a violência e o caos que se seguiram à deposição dele. Os líderes tribais do leste da Líbia, onde se concentra a maior parte das reservas de petróleo do país, querem um governo autônomo, independentemente dos assuntos ligados à Defesa e à política externa. "Não há motivos para esperar que Moscou abrande sua posição sobre o Irã ou a Síria após as eleições", segundo o Eurasia Group.

Veto. Depois das eleições na Líbia, a Rússia vetou uma resolução da ONU proposta pelas nações ocidentais e árabes para tirar Assad do poder. E Putin advertiu que um ataque contra o Irã será "realmente catastrófico", afirmando que potências estrangeiras apoiam os protestos contra o seu governo.

A Rússia opõe-se a uma nova resolução da ONU sobre a Síria proposta pelos EUA por considerar que se trata de uma "versão ligeiramente modificada" do documento vetado no mês passado, disse o vice-chanceler Gennady Gatilov.

Com a dissolução dos regimes autocráticos da região provocada pela Primavera Árabe, a Rússia está perdendo as vendas de armas ao Oriente Médio. Teve de renunciar a contratos de venda de armamento de US$ 4 bilhões com a Líbia, depois da queda de Kadafi, disse este mês Sergei Chemezov, presidente da estatal Russian Technologies Corp.

O país espera superar este ano o recorde de exportações de armas que renderam US$ 12 bilhões em 2011, informou Chemezov à agência Interfax, em janeiro. O total das exportações de bens ultrapassou os US$ 500 bilhões no ano passado, segundo dados do Banco Central russo. A Rússia tem com a Síria acordos de cerca de US$ 3,5 bilhões em vendas de armas, segundo o Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias de Moscou.

A divergência da Rússia com os EUA e as potências europeias em relação à Líbia e à Síria reflete também sua frustração com as "políticas intervencionistas ocidentais" que lembram as "revoluções coloridas", com o apoio do Ocidente na Geórgia e na Ucrânia em 2003 e 2004, disse num e-mail Lilit Gevorgyan, analista para a Rússia em sua IHS Global Insight em Londres. "O nível da retórica antiamericana está relacionado às eleições, mas não é influenciado diretamente por elas", disse Gevorgyan. A posição antiamericana de Putin também é influenciada pela política de Washington.

Os EUA recusaram um pedido de garantias por parte da Rússia de que não dirigirão seu escudo de defesa antimísseis contra ela. O vice-chanceler Sergei Ryabkov disse na terça-feira que é possível que a Rússia se retire da cúpula com a Otan, que será realizada em Chicago, se o escudo antimísseis estiver na pauta.

Em 2004, Putin apoiou um candidato favorável à Rússia na Ucrânia contra o líder da oposição Viktor Yushchenko, que tinha o apoio do Ocidente, e chegou ao poder depois de grandes manifestações de protesto contra as fraudes nas eleições. Em agosto de 2008, poucos meses após Medvedev assumir a presidência, a Rússia entrou em guerra com a Geórgia, um aliado dos EUA que tentava ingressar na Otan. Ao mesmo tempo, a política externa russa é "pragmática", segundo Gevorgyan. Mesmo na presidência de Medvedev, Putin continuou decidindo as questões de política externa e o "restabelecimento" das relações com os EUA "não poderia ter ocorrido sem sua aprovação."

Embora os EUA não tenham comemorado a vitória de Putin, os líderes da UE, que depende da Rússia para atender 25% de suas necessidades de consumo de gás, foram mais magnânimos com as congratulações do premiê britânico, David Cameron, da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, Nicolas Sarkozy. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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