Putin e política da desforra

Magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky é a mais nova vítima do premiê da Rússia

Simon Tisdall, The Guardian, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

A imperdoável política de desforra do premiê russo Vladimir Putin fez mais uma vítima importante com o veredicto de culpado para Mikhail Khodorkovsky, ex-magnata do petróleo que ousou se contrapor ao Kremlin. O resultado não poderia ser diferente. Na Rússia, desafiar Putin é como entrar na frente de um tanque.

Putin é implacável, incansável e impiedoso quando lida com inimigos. Ele segue uma antiga tradição russa que o público parece gostar, concedendo-lhe índices de aprovação de 70% ou mais. No entanto, a profundidade à qual o ex-agente da KGB parece pronto a ir alimenta acusações de que a corrupção prosperou sob sua tutela.

Um exemplo da desforra como ferramenta política foi em 1999, quando Putin, então um nomeado pouco conhecido do presidente Boris Yeltsin, derrubou Yuri Skuratov, poderoso procurador-geral da Rússia. Putin e o então ministro do Interior, Sergei Stepashin, montaram uma coletiva para discutir um vídeo no qual um homem nu, parecido com Skuratov, aparecia se divertindo com duas jovens. Putin disse que as mulheres eram prostitutas numa orgia paga por criminosos.

O erro de Skuratov foi ter iniciado uma investigação de corrupção envolvendo Yeltsin e seu círculo íntimo, do qual Putin fazia parte. Skuratov acusou Putin de proteger assessores corruptos do Kremlin. No ano seguinte, com Putin já presidente eleito, o Parlamento russo exonerou Skuratov. Como Khodorkovsky, ele estava acabado.

A implacabilidade de Putin foi vista outras vezes. A oposição foi esmagada pela Rússia Unida, partido criado por Putin. Políticos capazes, como o ex-premiê Mikhail Kasyanov, foram descartados por serem independentes. Ex-aliados desobedientes, como o oligarca Boris Berezovsky, hoje exilado em Londres, caíram em desgraça.

Após mais de uma década no poder, Putin continua inflexível. Este mês, em pronunciamento, ele acusou os opositores Boris Nemtsov, Vladimir Milov e Vladimir Ryzhkov de buscarem o poder para "forrarem seus bolsos". "Se os deixarmos fazer isso, eles venderão toda a Rússia", disse. Em 2006, Anna Politkovskaya, uma renomada jornalista opositora, foi morta. Apesar de uma investigação pública, seu assassinato continua inexplicado. Outros sofreram destinos parecidos, tanto no país como no exterior.

Visto de perto, Putin não parece um ogro. Fisicamente pequeno, ele compensa a pouca estatura malhando e praticando esportes. Ele parece arrogante, inseguro, zangado e ressentido. Seja como for, por diversas vezes ele exportou a animosidade pessoal para a arena externa. A invasão russa da Georgia, em 2008, ocorreu na esteira de uma disputa com o presidente georgiano Mikhail Saakashvili.

Em questões como a defesa antimísseis europeia e a independência de Kosovo, Putin parece levar as coisas para o lado pessoal. Mas, em outros casos, ele prefere cooptar, como fez com o ex-chanceler da Alemanha Gerhard Schroeder e com o premiê italiano, Silvio Berlusconi. Por não se retratar, Khodorkovsky tornou-se o mais recente de uma longa lista de oponentes vítimas dessa política de desforra - e não será o último. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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