Stanislav Kozliuk/ EFE
Stanislav Kozliuk/ EFE

Putin está blefando sobre a Ucrânia? Aliados nos EUA e na Europa estão divididos; leia análise

Dirigentes têm dúvidas sobre as reais intenções de Putin na região

Adam Taylor *, The Washington Post

26 de janeiro de 2022 | 05h00
Atualizado 26 de janeiro de 2022 | 16h43

WASHINGTON - Quando se trata de avaliar o risco de uma invasão russa na Ucrânia, há uma grande divisão geopolítica. Os Estados Unidos, em conjunto com seu habitual aliado de política externa, o Reino Unido, alertaram que as tropas russas reunidas na fronteira da Ucrânia sugerem que Moscou pode iniciar um grande conflito em solo europeu. Mas mesmo com esse risco, alguns países europeus nas proximidades permanecem céticos.

A Alemanha tem sido particularmente resistente ao pensamento predominante em Washington e Londres. Até agora, Berlim descartou o fornecimento de armas para a defesa da Ucrânia. Os aviões da Força Aérea Real Britânica até mesmo evitaram o espaço aéreo alemão quando foram entregar armas antitanque para a Ucrânia, adotando uma rota mais longa sobre o mar do Norte e a Dinamarca.

Há muitas razões para a divisão, mas uma diferença fundamental é quanto às opiniões em relação ao presidente russo e suas intenções, de acordo com Liana Fix, especialista em Rússia da Fundação Körber de Berlim. Muitos na Europa acham que Vladimir Putin está blefando, disse ela.

“Na Europa, a percepção é de que a Rússia está intensificando a ameaça militar para conseguir concessões”, disse-me Liana, atualmente participando de um projeto de pesquisa em Washington no German Marshall Fund. “Enquanto aqui a percepção parece ser de que a escalada militar é talvez o caminho mais provável pela frente.”

A diferença gritante ficou evidente nos comentários do chefe da Marinha da Alemanha na sexta-feira, que perguntou a um painel de think tanks em Nova Délhi se eles achavam que a Rússia estava interessada em ter uma “pequena e minúscula faixa de solo ucraniano” sob seu controle. “Não, isso é uma tolice”, disse o vice-almirante Kay-Achim Schönbach, antes de acrescentar que “Putin provavelmente está nos pressionando porque ele pode fazer isso”.

Os países do ocidente devem responder dando ao líder russo o respeito que ele deseja – e merece – continuou o líder da Marinha alemã. Schönbach pediu demissão no sábado depois dos protestos internacionais.

Opiniões como essa não são exceções como você talvez imagine. Há muitas autoridades e especialistas que acreditam que a Rússia não busca um conflito e que sua intensificação militar é uma manobra com o intuito de forçar concessões do ocidente. No entanto, há desacordo quanto a se suas demandas, que incluem o fim da expansão oriental da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), devem ser atendidas.

O historiador e estrategista militar Edward Luttwak escreveu no Twitter na semana passada que Putin estava “blefando” em relação à Ucrânia, pois invadir o país iniciaria uma guerra que o país “não pode se dar ao luxo de lutar”.

“Invadir o maior país da Europa com menos de 200 mil soldados não daria fim à crise de modo vitorioso para a Rússia”, escreveu Luttwak, acrescentando que mesmo que nenhum país europeu envie tropas, “eles enviarão armas”.

A Rússia já surpreendeu a todos e iniciou grandes ataques internacionais anteriormente com Putin – na Chechênia em 1999, na Geórgia em 2008, na Síria em 2015 e até mesmo de modo não tão encoberto em regiões separatistas da Ucrânia desde 2014 – e ainda se envolve com frequência em atos internacionais de menor grau. Mas uma invasão em grande escala de um país enorme – que faz fronteira com a União Europeia, é bem abastecido com armas do ocidente e tem uma população amplamente hostil – talvez seja uma proposta muito diferente.

Autoridades russas falam em 'histeria' dos EUA no caso da Ucrânia

As autoridades russas exploraram ao máximo essa incerteza, acusando os EUA e seus aliados de “histeria” na segunda-feira. O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, disse na semana passada que a Rússia não tomaria nenhuma medida agressiva. “Não atacaremos ou invadiremos a Ucrânia”, disse ele à imprensa russa. E algumas autoridades europeias parecem ter dúvidas sobre os relatos dos EUA e do Reino Unido também.

Ao se pronunciar depois da reunião com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em Bruxelas, a principal autoridade de política externa da União Europeia disse que os países precisam evitar um “colapso nervoso” em suas reações à situação. “Sabemos muito bem qual é o grau de ameaças e a forma como devemos reagir e, sem dúvida, devemos evitar reações alarmistas”, disse Josep Borrell na segunda-feira.

Mas outros acreditam exatamente no oposto: que são as ofertas de diplomacia, não a ameaça de guerra, o verdadeiro blefe. Em um texto para o site War on the Rocks na segunda-feira, Michael Kofman argumentou que as exigências da Rússia simplesmente não poderiam ser atendidas pelos EUA e seus aliados da Otan.

“Ao divulgar suas exigências e se recusar a separá-las em possibilidades que talvez levassem a um acordo, a Rússia fez seu esforço diplomático parecer mais performático do que verdadeiro”, escreveu Kofman, diretor do programa de estudos da Rússia no think tank CNA, acrescentando também: “Talvez Moscou esteja apenas tentando ver o que pode conseguir de forma indireta, mas as exigências políticas não se alinham com o lado militar da equação”.

Em dezembro, autoridades americanas disseram estar vendo sinais de que a Rússia se preparava para uma ofensiva militar contra a Ucrânia envolvendo até 175 mil soldados. Desde então, tropas foram vistas se deslocando pela vizinha Belarus. O Reino Unido alertou sobre os planos russos de instalar um governo pró-Moscou em Kiev. “Embora não possamos ler a mente do presidente Putin, estamos vendo os preparativos que eles estão fazendo na fronteira”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, 24.

Apesar de negar estar planejando qualquer ação militar, a Rússia fez uma série de exigências unilaterais que impediriam a entrada da Ucrânia na Otan e, na prática, limitariam as forças do grupo  às fronteiras do bloco militar de 1997, antes de sua expansão para o leste. O país elaborou acordos para os EUA e a Otan, com o vice-ministro das Relações Exteriores Ryabkov dizendo na segunda-feira, 24, que as exigências não eram um cardápio de restaurante a partir do qual era possível fazer escolhas. Para muitos, o alcance dessas propostas de acordos sugere falta de seriedade.

“Poucas negociações sérias começam com um lado redigindo, muito menos publicando, um acordo inteiro”, escreveu recentemente Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA em Moscou, para o Post, dizendo também que Putin parecia não estar negociando, mas dando um ultimato. “E ultimatos, como sabemos pela história, costumam ser pretextos para anexação ou guerra.”

Como Putin agora pretende sair do enrosco diplomático

Blefes existem para serem utilizados.  Isso poderia colocar Putin na posição de ser o homem que apostou tudo e saiu da mesa sem nada. Ele está realmente disposto a deixar isso acontecer?

“Ao recuar na escalada militar, Putin arriscaria ser acusado de não conseguir concessões sérias em relação à Ucrânia ou à Otan. Ele seria visto como um homem que fala muito e ameaça, mas, quando confrontado com uma resposta inflexível do outro lado, acaba recuando”, escreveu o historiador britânico Timothy Ash para o Atlantic Council nesta semana.

Outros também concordam com a perspectiva. Fiona Hill, que atuou anteriormente como especialista em Rússia no Conselho de Segurança Nacional dos EUA do ex-presidente Donald Trump, disse quase a mesma coisa ao site Puck News, afirmando que Putin acredita que pode conseguir concessões de Biden, pois ele se preocupa mais com a Ucrânia do que Trump. “Se dissermos que ele está blefando, ele terá que fazer algo, porque, caso contrário, nenhuma de suas ameaças é crível”, disse Fiona.

Até o principal líder dos EUA aparentemente acredita nisso. “Meu palpite é que ele vai avançar. Ele tem que fazer alguma coisa”, disse Biden durante uma entrevista coletiva na semana passada. E a questão da credibilidade surge de ambos os lados.

“O presidente dos Estados Unidos não será chantageado”, disse o democrata Ro Khanna em entrevista à CNN neste fim de semana. “Se ele aceitasse isso, todos os demais países começariam a tentar chantagear o presidente.”

Se um ataque de fato acontecer, aqueles que pensavam que Putin estava blefando estarão errados. Historicamente, países como a Alemanha esperavam que integração econômica e diálogo melhores com a Rússia garantiriam relações pacíficas. Como Liana disse: “Esta é uma prova de fogo para a estratégia da Alemanha em relação à Rússia”.  

* Jornalista, escreve sobre relações exteriores para o Washington Post

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