Putin já venceu

Líder russo ganhou com raciocínio metódico e simples; ele deve estar surpreso de o Ocidente ser tão incompetente

DANIEL, ALTMAN, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2014 | 02h07

Ah, Vladimir Putin. Ele é o gélido ex-coronel da KGB que todos adoram odiar. Putin quer tornar a Rússia novamente grande e poderosa. Como essa não é a situação vigente, ele precisa encontrar maneiras de mudar o estado do mundo. Está fora de questão assumir riscos. Por isso, ele segue um processo simples de três etapas:

1. Localizar a oportunidade. Como um teórico do jogo, Putin analisa todos seus movimentos possíveis e os de seus adversários. Ele analisa o jogo em cada cenário, até o fim. Se vencer completamente ou ao menos se sair melhor em todos os resultados possíveis, então ele está dentro. Muito raramente ele é obrigado a jogar um jogo que não quer jogar.

2. Mudar a situação vigente. Se Putin não age, o mundo seguirá seu caminho tranquilamente. Por isso, ele precisa fornecer o impulso para as coisas ficarem do jeito que ele quer. Ele pode fazê-lo diretamente ou por intermediários que podem ou não saber muito sobre o jogo que ele está fazendo. O importante é que seus intermediários sejam capazes de conseguir a mudança, mesmo que sozinhos não possam tornar a mudança permanente.

3. Obrigar os adversários a aceitar o nova realidade. O tipo de adversário favorito de Putin é o que aceita perder. As ações de Putin na Ucrânia são um caso exemplar. Seus objetivos gerais são aumentar o poder russo e fazer o Ocidente recuar ante a expansão de suas esferas de controle e influência.

Eis como ele pode ter visto o desenrolar do jogo no fim do ano passado. Primeiro, ele ofereceria um pacote de ajuda financeira à Ucrânia. Sabia que seu aliado, o presidente Viktor Yanukovich, aceitaria. Se tudo desse certo, missão cumprida - a Ucrânia seria novamente um Estado cliente da Rússia. Se não - isto é, se houvesse sublevação política, protestos, agitação, ou os três - o país ficaria instável. Uma Ucrânia instável estaria madura para a colheita, especialmente porque partes dela são fortemente simpáticas à Rússia. Se a Ucrânia não ficasse instável, a jogada seguinte de Putin seria invadir a Crimeia e legitimar seu retorno à Rússia.

Ao promover o mesmo tipo de instabilidade na Ucrânia oriental, Putin criaria uma atmosfera em que o governo local e o Ocidente temeriam uma incursão mais profunda no território ucraniano e a possibilidade de uma guerra aberta, a situação atual. Tendo criado suficiente tensão na Ucrânia oriental, ele finalmente parecerá ouvir a voz da razão. Desautorizará forças pró-Rússia ali, enquanto as tranquiliza privadamente sobre seu apoio e explica que não era hora de avançar mais.

O ocidente chamará sua atitude de um passo na direção certa, adotará um tom reservadamente otimista sobre a Ucrânia e permitirá a extinção de suas sanções contra a Rússia.

Os adversários de Putin, incluindo talvez um movimento em Kiev ávido para retornar à política normal (e precisando da energia russa), proclamará vitória. O retorno da Crimeia para a Rússia se tornará uma nota de rodapé da história, exceto por alguns pequenos protestos da Casa Branca e da ONU todos os anos no fim de fevereiro. Que lições se poderia tirar de ter jogado o jogo dele? De novo, eu proporia três pontos:

1. Avaliar vulnerabilidades, tanto presentes como potenciais. Os jogos que Putin jogará nem sempre serão facilmente visíveis. A Ucrânia não era obviamente instável, mas Putin teve a presciência de ver como ela poderia ficar desestabilizada.

2. Conhecer os objetivos do adversário. O Ocidente ficou impotente para conter Putin porque este não se importou tanto com o que o Ocidente estava disposto a fazer quanto se importava com a Crimeia.

3. Usar indução retroativa.

É preciso saber o que os jogadores farão no estágio final do jogo para prever suas ações anteriores. Por exemplo, se eu sei que você responderá a um ataque oferecendo a outra face, ficarei menos propenso a um acordo.

Apelar para moralidade, direito internacional ou algum outro árbitro de comportamento que não seja o pragmatismo não dará certo. Mas a abordagem direta faz de Putin o tipo mais fácil de adversário para um estrategista com a mesma mentalidade. Putin deve estar surpreso de o Ocidente ainda agir com tanta incompetência contra ele. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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