Putin liga para Obama e discute Ucrânia

Presidente russo indica que aceita debater solução diplomática com os EUA para resolver impasse causado pela anexação da Crimeia

MOSCOU , O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h07

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ligou ontem seu colega americano Barack Obama para discutir uma proposta dos EUA de solução diplomática para a crise na Ucrânia. Um comunicado da Casa Branca informou que eles concordaram em se reunir em breve para debater o tema.

Segundo a presidência americana, o telefonema do líder russo ocorreu após a proposta apresentada pelo secretário de Estado, John Kerry, ao seu colega russo, Seguei Lavrov, durante as conversações sobre a crise numa reunião em Haia, na Holanda, no início da semana.

Funcionários de Washington não deram detalhes, mas disseram que Obama disse a Putin que uma solução diplomática, para os EUA, envolveria a retirada das tropas russas da península da Crimeia e o compromisso de Moscou de não invadir outras partes da Ucrânia.

Obama, que visitava a Arábia Saudita ontem e recebeu a ligação em Riad, "incentivou a Rússia a apoiar o processo diplomático e a evitar qualquer provocação futura, incluindo o envio de forças nas fronteiras com a Ucrânia".

Putin e Obama entraram em um clima de tensão desde que forças russas foram deslocadas para a Crimeia, no início do mês, para apoiar um movimento que terminou com a anexação, aprovada em referendo, da península a Moscou.

Mais cedo, ontem, o presidente ucraniano deposto, Viktor Yanukovich, refugiado na Rússia, pediu que cada uma das regiões realize um referendo sobre seu status "dentro da Ucrânia".

O comunicado de Yanukovich, destituído após três meses de protestos, reacendeu temores de instabilidade nas províncias ucranianas de língua russa. Áreas ao leste do país, que assim como a Crimeia têm maioria étnica russa, também estão insatisfeitas com o novo governo interino.

A Ucrânia está marcada por uma profunda divisão entre os territórios pró-Moscou e os favoráveis à aproximação com a União Europeia. Os governos ucraniano, americano e europeus demonstraram preocupação de que tropas russas possam invadir outras partes do país. Quando decidiu enviar reforço militar à Crimeia, Putin disse que o Kremlin poderia usar "todos os meios" para proteger os cidadãos de origem russa de "nacionalistas radicais" na Ucrânia.

O comunicado de Yanukovich foi publicado pela agência de notícias russa Itar-Tass. A Rússia tem pressionado fortemente pela federalização da Ucrânia - o que daria mais autonomia às regiões. As autoridades interinas em Kiev, porém, rejeitam essa possibilidade.

Yanukovich, que está refugiado no sul da Rússia desde sua cassação, no dia 22 de fevereiro, e ainda considera presidente legítimo, disse acreditar que as eleições do dia 25 de maio não solucionarão os problemas da Ucrânia.

Ataque. "Como presidente que está com vocês com toda a minha alma e meus pensamentos, faço um apelo a todos os cidadãos sensíveis da Ucrânia. Não cedam aos impostores! Exijam um referendo sobre o status de cada uma das regiões dentro da Ucrânia", disse Yanukovich.

Após a divulgação do comunicado, procuradores ucranianos abriram uma nova investigação contra Yanukovich, sob a acusação de tentar derrubar a ordem constitucional do país. Em outra repercussão, a maior rival política de Yanukovich, a ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko atacou o comunicado, acusando o ex-líder de ter se tornado uma "ferramenta programada para destruir a independência da Ucrânia". Na quinta-feira, ela anunciou que concorrerá à presidência nas eleições de maio.

Yanukovich ressaltou que, como as novas autoridades não são legítimas, as reformas legislativas são inconstitucionais. Ele insistiu na aplicação dos acordos assinados com os líderes opositores na presença de mediadores europeus e russos, um dia antes de sua cassação, que contemplava, entre outras coisas, a formação de um governo de união nacional.

Yanukovich defendeu a decisão de rejeitar as condições impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para resgatar a economia e de interromper o processo de associação à União Europeia quando ainda ocupava o cargo. Essa recusa causou descontentamento e desencadeou os protestos em massa que resultaram em sua queda. / AP, REUTERS e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.