Alexei Nikolsky/EFE/Kremlin/Sputnik
Alexei Nikolsky/EFE/Kremlin/Sputnik

'Putin não é suicida, nem louco. É um líder autoritário sem freios e contrapesos'; leia entrevista

Para professor da Universidade do Alabama, líder russo acreditou ter visto uma janela de oportunidade para insistir em antiga demanda dele e da Rússia

Entrevista com

George Liber, historiador e especialista em Ucrânia

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 10h00

Após a saída caótica dos EUA do Afeganistão, o presidente russo, Vladimir Putin, provavelmente acreditou ter visto uma janela de oportunidade para insistir em uma antiga demanda dele e da Rússia, a de consolidar a Ucrânia sob a esfera de influência russa. Ao mesmo tempo, também estabelecer um relacionamento especial de Moscou com o restante da Europa e da Otan, além do papel coadjuvante. A avaliação é do historiador George Liber, professor da Universidade do Alabama, em entrevista ao Estadão. Filho de refugiados ucranianos da 2ª Guerra, é autor de vários livros sobre o país, incluindo Total Wars and the Making of Modern Ukraine, 1914–1954.

Putin foi motivado por uma noção de que o governo Biden ficou enfraquecido pela retirada caótica do Afeganistão?

A retirada dos EUA provavelmente inspirou Putin. Aquilo que assistimos no Afeganistão foi uma experiência muito dolorosa e triste. Eu acho que as explicações do governo Biden de por que o Taleban assumiu tão rapidamente não convenceram e não são muito coerentes. Minha impressão é que eles não anteciparam isso, os militares americanos sim, mas os funcionários do Departamento de Estado dos EUA não, o que é muito estranho. Então o presidente Putin viu isso e parece ter acreditado que este era um bom momento para pressionar os EUA e a Otan sobre a Ucrânia. Putin tem um interesse de longa data em trazer a Ucrânia de volta para a esfera de influência russa, da União Soviética. Agora, ele viu uma oportunidade. Putin imaginou que o Afeganistão enfraqueceu tanto a administração Biden que quaisquer declarações feitas por ela sobre a Ucrânia ou a Otan não seriam apoiadas pelos outros membros da aliança militar.

E ele estava certo?

Acredito que o presidente Putin teve uma surpresa desagradável com a resposta mais ou menos unificada. Na maior parte das vezes, tem sido uma resposta unificada contra ele. Putin achou que esta era uma oportunidade não apenas para pressionar a questão da Ucrânia, mas também para pressionar a questão de um relacionamento especial da Rússia com o restante da Europa e da Otan. A Rússia não quer se tornar um Estado com status de copiloto dos EUA. O presidente Putin exagerou. No entanto, ele tem a vantagem de estar geograficamente mais próximo da Ucrânia do que os EUA ou a Otan. A Ucrânia não é membro da Otan e provavelmente não será por muitas décadas. Putin tem uma espécie de vantagem geográfica e ele pode levar seus tanques a qualquer momento e obter alguma vitória e essencialmente paralisar a Ucrânia.

Há alguma negociação paralela entre russos e ucranianos?

Não acho que haja negociação, mas é uma situação muito complicada. Quando a Rússia diz à Otan que a aliança não pode ter a Ucrânia como membro, ela responde: 'Bem, você nem é membro e não pode nos dizer o que podemos fazer'. A Otan afirma que é uma decisão da Ucrânia. Por outro lado, os membros da Otan não estão entusiasmados com a perspectiva de a Ucrânia se tornar um de seus membros. A adesão à Otan da Ucrânia traz problemas. Toda a questão da Crimeia, que foi invadida e anexada pela Rússia há oito anos, e áreas separatistas como Donetsk e Luhansk. Esse é um problema, a Otan não está tão interessada em admitir um membro que vai causar-lhe mais problemas do que queria lidar, embora a aliança tenha se tornado tão grande nos últimos anos. Ela se expandiu dramaticamente e agora tem 30 membros, muitos deles, ex-países comunistas. No entanto, a liderança da Otan, em muitos aspectos, é avessa ao risco. Eles não estão interessados em expandir o nível de risco que já possuem. Eles não vão dizer isso nem em particular, mas não estão entusiasmados em aceitar a Ucrânia na Otan.

E se a Ucrânia vir a solicitar?

Essa é uma situação complexa, em que uma organização diz estar aberta a todos os membros que atenderem às suas qualificações, mas a questão é quais são as qualificações que um futuro membro tem de atender? Isso eu diria que é pouco claro para a Ucrânia ou para observadores externos. Mas eu acredito que os requisitos ficarão sempre um nível de dificuldade maior e a Ucrânia nunca poderá participar. Sempre tem essa questão da corrupção, da falta do estado de direito, há todo um questionamento sobre até que ponto a Ucrânia é uma democracia em comparação com os outros membros da Otan. Todas essas são perguntas que os comitês de admissão da Otan vão fazer. Mas suspeito que o nível de exigência para atender a essas qualificações será maior para a Ucrânia do que foi para a Macedônia do Norte, que se juntou à aliança no ano passado.

Claro que a Macedônia do Norte não está ao lado da Rússia então é muito mais fácil. A Ucrânia quer tornar-se membro porque significa que seria defendida pelos outros membros da Otan se uma situação como essa atual ocorresse, uma situação que acredito que não será curta. Depois dessa crise, os ucranianos vão querer ainda mais a adesão. E esse é o grande paradoxo aqui. A Otan e os EUA não podem dizer a Putin que a Ucrânia poderá vir a ser um membro. É um impasse diplomático. Em uma diplomacia normal, ambos os lados chegariam a algum tipo de acordo. No entanto, Putin não está interessado em um acordo. Ele quer pressionar por essa questão. Ele quer obter algo com o envio de soldados para a fronteira ucraniana.

Por que a Ucrânia é tão importante para Putin e para a Rússia?

Bem, ambos estão entrelaçados com coisas diferentes. Não podemos esquecer qual é a  formação de Putin. Ele era um oficial da KGB na Alemanha Oriental. Ele foi enviado para lá quando a Alemanha Oriental era um aliado muito próximo da União Soviética. E ele estava na cidade de Dresden, que era a única grande cidade da Alemanha Oriental que não recebia sinal da TV da Alemanha Ocidental. Outras cidades, até mesmo vilarejos da Alemanha Oriental, conseguiam fazer suas antenas captar o sinal e ver o que estava acontecendo do outro lado do muro. Putin, que falava alemão muito bem, teria entendido a transmissão do lado Ocidental. Em 1989, várias revoluções ocorrem na Europa Oriental, começando com as eleições polonesas em junho. E, então o ponto alto, claro, a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, quando o controle comunista da Europa Oriental passa a ser contestado. Quando a Alemanha Oriental entrou em colapso Putin viu isso em primeira mão. E tem o episódio sobre o quartel-general russo em Dresden.

O que houve ali?

O que aconteceu foi que em novembro de 1989, depois que o muro caiu, os alemães orientais tentaram atacar o quartel-general da Stasi, que era a inteligência da Alemanha Oriental. Eles invadiram e colocaram fogo nele e não enfrentaram nenhuma resistência. No entanto, quando chegaram ao complexo russo que abrigava a sede da KGB, o então tenente-coronel Vladimir Putin era o oficial sênior encarregado. Ele viu seu prédio ser cercado, sofreu a ameaça desses manifestantes que queriam invadir seu prédio. Em suas memórias, ele descreve como seus oficiais subalternos estavam queimando papéis. Eles os queimavam tanto que a fornalha quebrou. E Putin sentiu que tinha de fazer alguma coisa. Então ele saiu de seu complexo e confrontou os manifestantes da Alemanha Oriental com uma metralhadora. E disse a eles que atiraria se viessem em sua direção. Tudo isso se tornou uma experiência traumática. Quando ligou para Moscou para perguntar quando o reforço chegaria soube que ninguém estava a caminho. Nessa experiência traumática, ele passa a associar a democracia ao caos.

Como a maioria das pessoas que trabalham nos serviços de inteligência, como membro da KGB, ele tinha uma profunda crença na União Soviética. Depois que a União Soviética, em 1989, perdeu a maior parte da Europa Oriental como consequência dessas revoluções democráticas, ele retorna para seu país em 1990 e é designado para trabalhar como um assistente do prefeito democraticamente eleito de São Petersburgo, sua cidade. Putin acha tudo isso uma humilhação. Ele foi humilhado pessoalmente. Primeiro se sentiu ameaçado com um ataque físico em Dresden, então volta para São Petersburgo e se sente ameaçado pelo colapso da União Soviética. Agora que ele está no poder há mais de 20 anos, quer restabelecer a esfera de influência russa não apenas sobre ex-repúblicas soviéticas como a Ucrânia, mas em outros países do Leste Europeu, como a Polônia e outros. Mas há uma coisa que está no seu caminho, a Otan.

Esse é seu objetivo?

Muitos desses antigos países comunistas do Leste Europeu, que se tornaram parte da Otan, não querem voltar para a esfera de influência russa. Eles preferem a União Europeia, preferem uma relação mais amigável com os EUA em oposição ao relacionamento que tiveram com Moscou no passado. Esse é o problema aqui. Putin tem um grande projeto, que é paralisar a Otan e expulsar os EUA da Europa. Esse é o sonho real dele. Mas há coisas menores que ele poderia obter antes e uma delas é a Ucrânia. Ele espera porque sabe que a Ucrânia não é membro da Otan e não tem garantias de segurança da aliança nem mesmo dos EUA. Se ele puder obter algo sobre a Ucrânia, seja com uma invasão ou uma pequena incursão ou uma guerra cibernética, ele venceria e demonstraria que nada pode pará-lo. Quer mostra que se neutralizar a Ucrânia, poderia muito bem neutralizar países menores da União Europeia. É uma questão de exemplo do que ele pode fazer. Ele está essencialmente sondando os EUA, a Otan, e outros países do mundo para ver o que eles vão tolerar e, caso haja uma ação, como vão resistir.

Quão perto estamos realmente de uma guerra?

Essa é uma boa pergunta. Eu, infelizmente, lido com o passado mais do que com o futuro. A questão é saber de que tipo de conflito você está falando. Quer dizer, existem vários cenários neste momento. Muda todos os dias. No entanto, agora, Putin não tem o número suficiente de militares para uma ocupação em grande escala como, digamos, no caso da então Tchecoslováquia  em 1968 ou na Hungria em 1956. Não está claro para mim quantas tropas ele precisa porque não sou um especialista militar, mas certamente mais do que 150 mil (atualmente, quase 200 mil) porque a Ucrânia é um país grande. Precisaria muito mais do que isso para ocupar totalmente.

Existe alguma previsão de essa situação se dissipar?

A questão que surge é quais são os riscos que Putin vai correr? Não acho que ele seja suicida, nem louco. Como ele é um líder autoritário de um país que não tem freios e contrapesos sobre ele, pode fazer o que quiser. Ele controla a mídia estatal na Rússia e pode explicar o que quiser ao povo russo e a esmagadora maioria vai acreditar nele porque eles não têm nenhuma forma alternativa de informação. Se não há uma mudança de poder, e a mesma pessoa fica no comando por um longo período de tempo, ela acumula bons amigos que lhe dizem coisas boas, que essa pessoa é brilhante, só diz o que ela quer ouvir. E não há ninguém verificando. Com o passar do tempo, Putin talvez tenha aceitado essa própria imagem inflada dele mesmo. Enquanto outros líderes nas democracias precisam sempre tomar cuidado para não perder a opinião pública, ele não tem essa preocupação. Todos os seus adversários estão na cadeia.

E sua popularidade?

É muito alta por conta da pergunta que você fez sobre por que a Rússia está interessada na Ucrânia. Os russos controlaram grandes quantidades do território ucraniano por longos períodos de tempo. Eles têm essa visão imperial e de direito (sobre o território), acreditam que a Ucrânia e a Belarus não são realmente diferentes da Rússia e constituíam uma espécie de casa comum. Há essa percepção de que o colapso da União Soviética criou uma Ucrânia independente e uma Belarus independente e isso é algo horrível, não natural. A maioria desses russos foi educada para pensar que toda essa área era e ainda é uma única unidade. 

 

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