Putin não pode ser líder dos antiamericanos

Ações do presidente russo não o credenciam para estar à frente de uma oposição aos EUA desejada por alguns grupos

LEONID, BERSHIDSKY, BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2014 | 02h03

Minha reação foi contraditória quando li uma recente declaração do presidente russo, Vladimir Putin, sobre uma nova Guerra Fria num discurso que ele proferiu na reunião do Clube Valdai de especialistas da Rússia.

O presidente acusou os Estados Unidos pelo que chamou de "colapso do sistema de segurança global" e aconselhou os EUA para não se envolver nos assuntos da Rússia. Em muitos pontos do discurso acabei concordando com o que Putin disse, mas é impossível aceitar a mensagem na íntegra porque ele é o mensageiro errado.

Enquanto os EUA unilateralmente se declararam vencedores da Guerra Fria, a Rússia nunca reconheceu sua derrota, nem mesmo extraoficialmente. Para o ex-presidente Boris Yeltsin, o colapso da União Soviética foi a libertação de uma ideologia comunista dilacerada que impedia a Rússia de se reintegrar no mundo civilizado. Para mim e para muitos amigos meus, foi uma vitória, não uma perda.

Como Putin salientou, a Guerra Fria não terminou num tratado de paz, o que deixou os EUA livres para agirem unilateralmente, e esse poder nem sempre foi usado sensatamente. Iraque e Afeganistão não estão melhores depois das intervenções americanas e o que Putin chama de "expansão do espaço de caos" no Oriente Médio é, em parte, resultado de políticas adotadas por Washington.

Segundo Putin, os EUA "continuam a lutar contra os resultados da sua própria política, usando seu poder para eliminar riscos que eles próprios criaram e pagando um preço cada vez mais alto por isso". De certo modo, o que o presidente russo diz é verdade.

Putin disse que sanções politicamente motivadas debilitaram a globalização liberal, baseada no mercado. De fato, as sanções mal planejadas contra a Rússia - e as respostas igualmente equivocadas de Putin a elas - provocaram distorções econômicas que afetam pessoas inocentes. Na Rússia, as sanções levaram a uma desvalorização da moeda e uma inflação desenfreada, enquanto dificultaram a retomada do crescimento na Europa.

Como ocorre frequentemente com os pronunciamentos de Putin, seu discurso feito na semana passada foi uma mistura de verdades, meias-verdades e mentiras deslavadas.

Não é verdade, por exemplo, que foi a decisão dos EUA, em 2002, de abandonar o tratado firmado com a União Soviética sobre o sistema de defensa antimísseis que levou mais países a desenvolverem sua capacidade nuclear. Tampouco é verdade que a decisão da União Europeia de negociar um acordo com a Ucrânia desencadeou "uma guerra civil com muitas vítimas". Putin gosta de encadear os fatos dentro de uma lógica duvidosa de causa e efeito.

O problema principal, no entanto, são suas tentativas de oferecer uma alternativa ao predomínio americano. Ao mesmo tempo em que afirma que a Rússia não deseja ser uma superpotência, ele procura reivindicar uma liderança moral.

"Não precisamos nos intrometer em parte alguma nem comandar seja quem for, mas não se envolvam conosco e nem aspirem a controlar o destino do mundo inteiro. E se a liderança da Rússia existe ou pode existir é na defesa das normas da lei internacional."

A Rússia de Putin poderia ser uma grande potência - ela é mais temida hoje do que em qualquer outro momento desde o colapso da União Soviética. No entanto, não é esse o tipo de poder que Putin afirma desejar. Ele se vê como um respeitado árbitro das disputas globais, uma autoridade moral que fiscaliza o cumprimento das regras. Esse, no entanto, é um papel para o qual sua carreira o tornou particularmente inadequado.

Ele tem uma história de justiça seletiva para inimigos políticos, eleições manipuladas, de implementar uma das máquinas de propaganda mais vergonhosas e caras do mundo, encorajar uma dependência de recursos passiva, um grupo de amigos bilionários que continuam ganhando as encomendas do governo e uma vida pessoal envolta em mistério (o único jornal russo que ousou dizer que ele tinha uma amante teve de fechar imediatamente) - nada disso permite a Putin se apresentar como uma personificação de Gandhi convincente.

Atualmente, é fácil contestar os EUA por razões morais e até mesmo acusar o país de incompetência nas questões internacionais. Um líder moral, no entanto, precisa fazer mais do que isso: a melhor liderança é pelo exemplo.

É fácil ver por que Putin não inspira tanto a Ucrânia, que acabou de votar por maioria esmagadora contra as forças políticas pró-Rússia. Os EUA e seus aliados europeus não compraram esses votos. A resistência contra Putin deixa os ucranianos em pior situação econômica, mas eles rejeitam o tipo de sociedade cínica, ignorante e repressiva que ele construiu na Rússia.

O mundo pode necessitar de potências que tenham condições de desafiar os EUA. A Rússia de Putin ou a China de Xi Jinping não são adequadas, pois não são exemplos que alguém gostaria de seguir. Ao reivindicar uma autoridade moral não merecida, Putin e aqueles do seu tipo debilitam seus próprios argumentos em favor de um sistema internacional mais estável. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E ESCRITOR

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