Putin promete 'arrancar do esgoto' autores dos atentados em Moscou

Putin promete 'arrancar do esgoto' autores dos atentados em Moscou

Vingança. Discurso de primeiro-ministro russo lembra linguagem usada pelo Kremlin no auge da repressão contra rebeldes chechenos do norte do Cáucaso; autoria de ataques contra duas estações de metrô da capital ainda não foi reivindicada

Sandro Fernandes, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO / MOSCOU

Exaltado, o premiê Vladimir Putin prometeu ontem intensificar a caçada aos autores dos atentados de segunda-feira contra o metrô de Moscou, dizendo que os responsáveis "serão arrancados do esgoto e trazidos à luz". A linguagem assemelha-se à usada por Putin no auge da repressão contra rebeldes no Cáucaso. Subiu ontem para 39 o número de mortos nos atentados, cometidos por duas mulheres-bomba.

Até agora, nenhum grupo assumiu a autoria dos ataques a duas estações do metrô de Moscou. Mas autoridades russas estão convencidas de que rebeldes chechenos do norte do Cáucaso estão por trás dos atentados.

Crescem também os temores de que liberdades individuais sejam ainda mais sacrificadas na Rússia em nome da luta contra o terror. "Autoridades ampliarão a perseguição a opositores, haverá mais censura e espionagem", previu Boris Nemtsov, político que faz dura oposição a Putin.

No dia seguinte ao atentado, Moscou transformou-se em duas capitais. Em uma, bandeiras a meio-pau e homenagens às vítimas do ataque na histórica Catedral de Cristo Salvador e nos locais das explosões. Na outra, medo e hostilidade.

Locais públicos de Moscou estavam mais vazios, e moscovitas e turistas não conseguiam esconder o medo. "Nunca me senti tão ansioso na minha vida. Parece que a qualquer momento alguém pode explodir uma bomba", relatou ao Estado o turista alemão Jan Steinbach. "Num dia normal, é impossível encontrar uma mesa aqui depois das 18 horas. Hoje não temos nem 30% dos lugares ocupados", disse Aleksey Petriokva, gerente de um bar em um shopping.

O Estado acompanhou durante uma hora uma chechena no seu caminho para casa. "Sempre noto que estão me observando por causa do véu, mas hoje eu me sinto muito incomodada", desabafou Natalia, que preferiu não revelar seu sobrenome. "Nasci em Moscou, mas toda minha família é chechena. Hoje um policial me parou e perguntou qual era o meu grupo étnico."

Brasileiros que moram em Moscou também já notam o clima de desconfiança. "Tenho feições árabes. Um amigo russo disse que era melhor eu ficar em casa estes dias. Estou assustada", disse a professora universitária Ana Tereza Andrade.

O temor não é em vão. Horas após o atentado, duas mulheres muçulmanas foram agredidas por passageiros do metrô. "Não sei por que usam véu num país ortodoxo. Acho inevitável que elas sejam agredidas", afirmou Masha (apelido para Maria).

Uma manifestação foi convocada para hoje diante da estação Lubyanka, um dos alvos dos ataques. Tevês russas suspenderam a exibição de programas de entretenimento. Passaram a exibir relatos de amigos e parentes das vítimas e documentários sobre o Cáucaso.

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