Putin promete libertar bilionário russo que desafiou poder do Kremlin

O presidente Vladimir Putin surpreendeu ontem russos e observadores estrangeiros ao anunciar que pretende conceder perdão ao mais famoso preso da Rússia, Mikhail Khodorkovski - antigo dono da petrolífera Yukos e o homem mais rico do país até 2004. Putin disse ter decidido soltá-lo por "razões humanitárias".

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2013 | 02h07

"Ele passou mais de dez anos em confinamento - isso é uma punição séria", afirmou o presidente russo, dizendo que a saúde da mãe de seu rival está seriamente comprometida. "Um decreto concedendo perdão a ele será assinado em breve", completou o presidente.

Putin fez o anúncio quando estava saindo de uma longa entrevista coletiva em Moscou, pegando de surpresa até mesmo os advogados de Khodorkovski.

Poucos acreditam que o líder russo tenha tomado a decisão simplesmente por empatia com o antigo bilionário, que caiu em desgraça após financiar partidos de oposição e veículos independentes da mídia russa (mais informações nesta página). O anúncio foi feito um dia depois de o Kremlin ter concedido uma anistia a milhares de opositores presos, incluindo 30 estrangeiros do Greenpeace. Duas integrantes da banda Pussy Riot também devem ser beneficiadas.

Uma das possíveis razões para a decisão é a opinião pública internacional: em 50 dias, a cidade russa de Sochi será sede dos Jogos Olímpicos de Inverno e grupos de defesa dos direitos humanos têm intensificado a pressão contra o crescente autoritarismo do governo Putin, incluindo com legislação que proíbe "propaganda homossexual" e o fechamento de uma agência de notícias independente, a RIA Novosti.

Alívio. O filho de Khodorkovski, Pavel, comemorou no Twitter: "Notícia muito boa. Esperando para conversar com meu pai". "O anúncio de Putin veio como uma total surpresa para mim, totalmente do nada", disse a mulher do preso, Maria, em entrevista à rede de televisão Russia Today. Também surpresos, os advogados do magnata pediam acesso para conversar com seu cliente. Desde que Khodorkovski foi preso por forças especiais russas em seu avião particular, em 2004, sua defesa sempre alegou não conseguir manter contato permanente com ele.

Para críticos do Kremlin, o caso Khodorkovski é um dos principais exemplos do autoritarismo da era Putin. Ao chegar ao poder, em 1999, o ex-agente da KGB deixou claro aos chamados "oligarcas" - grupo de empresários que enriqueceu subitamente após a queda da União Soviética - que eles não seriam perturbados caso se mantivessem longe da política. Mas o dono da Yukos, com uma fortuna estimada à época em US$15 bilhões, não seguiu o conselho. Pouco antes de ser preso por fraude fiscal, Khodorkovski havia se envolvido com grupos críticos a Putin.

O ministro do Desenvolvimento da Rússia, Andrei Klepach, disse esperar que a libertação do empresário ajude a melhorar a imagem russa entre investidores. / NYT e REUTERS

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