Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

Putin promete punição severa para manifestantes na Rússia

As autoridades disseram que alguns dos que estavam nas manifestações pedindo a libertação do líder da oposição Alexei Navalni podem ser acusados de crimes graves, com sentenças de prisão

Andrew E. Kramer, The New York Times

02 de fevereiro de 2021 | 13h00

MOSCOU - Um dia depois de protestos acontecerem por toda a Rússia em apoio a um líder da oposição preso, as autoridades disseram na segunda-feira, 1º, que alguns participantes enfrentam punições severas, incluindo um período de detenção no sistema prisional antes conhecido como gulag.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse a jornalistas em uma coletiva de imprensa on-line na segunda-feira que os protestos incluíam “um grande número de hooligans e provocadores” e que “a lei deve ser aplicada com a maior severidade”.

Pelo segundo fim de semana consecutivo, dezenas de milhares de pessoas se reuniram no domingo, em cidades de toda a Rússia, para pedir a libertação de Alexei Navalni, o líder da oposição que teve a prisão preventiva por 30 dias decretada no mês passado após retornar à Rússia.

Navalni voltou após sua recuperação em um hospital alemão depois de ser envenenado em agosto por um agente químico militar, um ataque que foi confirmado por laboratórios alemães, franceses e suecos.

Navalni , 44 anos, ativista anticorrupção que participa de protestos de rua na Rússia há uma década, disse que o Kremlin estava por trás do envenenamento e queria matá-lo. O governo russo negou e questionou se Navalni foi realmente envenenado.

A dose quase fatal de veneno, um sofisticado agente químico chamado Novichok desenvolvido pela União Soviética, foi colocada na cueca de Navalni , de acordo com o líder da oposição, citando o que ele disse ser uma confissão gravada por um agente russo.

Navalni voltou para a Rússia, mesmo após as autoridades terem ameaçado prendê-lo no desembarque. Ele foi então detido por violar a liberdade condicional de uma condenação de crime financeiro de 2014 que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou ter motivação política.

Navalni disse que o crime financeiro foi arquitetado pelas autoridades russas e considerou absurdas as acusações de violação da liberdade condicional, já que ele não poderia se apresentar duas vezes por mês a um oficial de condicional porque foi levado por segurança da Rússia para a Alemanha enquanto estava em coma após o ataque por agente químico.

Ele está sob prisão preventiva por 30 dias. Na terça-feira, um tribunal vai considerar a imposição de uma sentença de prisão que pode colocá-lo atrás das grades por vários anos.

O gabinete do procurador-geral emitiu uma declaração na segunda-feira dizendo que Navalni deveria ser encarcerado pelas violações da condicional, quase garantindo esse resultado, já que os juízes desafiam os pedidos dos promotores em apenas um pequeno número de casos no sistema de justiça criminal da Rússia.

Politicamente, a prisão indicaria uma mudança no governo do presidente Vladimir Putin na forma como lida com Navalni. Durante anos, ele foi frequentemente preso por curtos períodos por acusações menores, mas nunca condenado.

O encarceramento de dissidentes políticos cessou principalmente no período pós-soviético imediato, mas foi retomado, em pequena escala, sob o governo de Putin.

Após protestos de rua em Moscou em 2012, os tribunais sentenciaram algumas dezenas de milhares de manifestantes a longas sentenças de prisão, aparentemente como um exemplo para os demais.

Essas poucas dezenas de casos foram bem divulgados para destacar a ilegalidade das ações de rua não autorizadas, mas a abordagem evitou irritar um grande número de famílias de Moscou em um ataque da promotoria, arriscando uma espiral de repressão e protesto. Em contraste, na vizinha Belarus, a polícia deteve pelo menos centenas de manifestantes contra o governo desde o verão passado por longos períodos.

Durante o protesto de domingo, a polícia deteve 5.300 pessoas em toda a Rússia, embora muitas tenham sido soltas no final do dia.

Não está clara a extensão da rede que os promotores agora lançarão. Várias dezenas de casos foram relatados que podem levar a um período na prisão.

Peskov, o porta-voz do Kremlin, referiu-se a pessoas que se comportaram "mais ou menos agressivamente" com a polícia quando pediu punições severas. “Não pode haver conversas com hooligans e provocadores”, disse ele.

Apoiadores de Navalni disseram em um comunicado publicado na Internet na segunda-feira que esperavam que os promotores justificassem as acusações de motim contra os manifestantes com base em dois incidentes: um carro da polícia que pegou fogo e um homem em uma rua vazia que foi de encontro a uma fileira de policiais segurando um cassetete. A polícia emitiu um comunicado dizendo que estava investigando o incêndio no carro como vandalismo.

O comunicado observou que os dois episódios foram destaque na mídia pró-governo e podem se tornar uma justificativa para processar os participantes das marchas por acusações de motim, que acarretam longas sentenças. Sentenças curtas na Rússia são cumpridas nas prisões, enquanto a maioria das penas mais longas é cumprida nas colônias penais. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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