Putin quer Kiev muito mais do que a UE ou os EUA

ANÁLISE: Paul Taylor* / REUTERS - O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2014 | 23h44

Nada como um daqueles velhos palavrões para acrescentar um pouco de sabor a uma divergência transatlântica. Mas, quando a assistente do secretário de Estado, Victoria Nuland, usou a palavra "f..." num telefonema que não tinha proteção contra grampos para criticar a política da União Europeia em relação à Ucrânia, a expressão mostrou claramente que nem Washington nem Bruxelas dispunham de uma estratégia para tratar da crise.

Seu tom lembra o livro Of Paradise and Power, de seu marido, o historiador Robert Kagan, que incomodou muitos em Bruxelas por afirmar que "americanos são marcianos, europeus são venusianos". Em outras palavras, americanos são durões, europeus são medrosos.

No caso ucraniano, a UE e os EUA podem divergir quanto às táticas, mas têm metas comuns que não contemplam o uso da força. Ambos acreditam que os ucranianos deveriam ser livres para escolher a integração econômica com a UE. Nenhum deles está disposto a superar a oferta de US$ 15 bilhões feita pelo presidente russo Vladimir Putin. Ambos veem a Ucrânia como um país assolado pela corrupção. Ambos sabem que Putin considera de vital interesse manter a Ucrânia na órbita econômica e política da Rússia. Os dois também veem Viktor Yanukovich como parte do problema e não sua solução.

Deixando claro o ressentimento da UE com Nuland, um diplomata observou que os manifestantes ucranianos agitam bandeiras europeias e não americanas e exigem uma adesão à UE, não à Otan. Em Bruxelas, autoridades estão cautelosas para não empurrar ainda mais Yanukovich para os braços de Putin. Tanto os EUA quanto a UE correm o risco de serem pegos de surpresa por situações fora do controle, já que uma lição aprendida nos três meses de crise é que Putin deseja a Ucrânia mais do que americanos e europeus.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E TEREZINHA MARTINO

PAUL TAYLOR É JORNALISTA

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